31/10/2010

Uma ministra falhada

por Santana Castilho, *

Carta aberta à ministra da Educação
Senhora ministra:

Dentro de poucos meses partirá para um exílio dourado. Obviamente que partirá, seja qual for o resultado das eleições.

É tempo de lhe dizer, com frontalidade, e antes que o ruído da campanha apague o meu grito de revolta, como a considero responsável por quatro anos de Educação queimada. Este qualificativo metafórico ganhará realismo à medida que aqui for invocando os falhanços mais censuráveis, alguns apenas, dos muitos que fazem de si, politicamente, uma predadora do futuro da escola pública.
Se se sentir injustiçada, tenha a coragem de marcar o contraditório, cara a cara, onde e quando quiser, perante professores, alunos, pais e demais cidadãos votantes. Por uma vez, sairia do ciclo propagandístico em que sempre se moveu.

A senhora ministra falhou estrondosamente com o sistema de avaliação do desempenho dos professores, a vertente mais mediática da enormidade a que chamou estatuto de carreira. A sua intenção não foi, nunca, como lhe competia, dignificar o exercício de uma profissão estratégica para o desenvolvimento do país. A senhora anda há um ano a confundir classificação do desempenho com avaliação do desempenho e demonstrou ignorar o que de mais sério existe na produção teórica sobre a matéria. Permitiu e alimentou mentiras inomináveis sobre o problema.

O saldo é claro e incontestável: da própria aberração técnica que os seus especialistas pariram nada resta. Terá os professores classificados com bom, pelo menos, exactamente o que criticava quando começou a sua cruzada, ridiculamente fundamentalista. A que preço? Coisa difícil de quantificar. Mas os cacos são visíveis e vão demorar anos a reunir:
  • o maior êxodo de todos os tempos de profissionais altamente qualificados;
  • a maior fraude de que há memória quando machadou com critérios de vergonha carreiras de uma vida;
  • o retorno à filosofia de que o trabalho é obrigação de escravos.
Não tem vergonha desta coroa? Não tem vergonha de vexar uma classe com a obrigação de entregar objectivos individuais no fim do ano, como se ele estivesse a começar? Acha sério mascarar de rigor a farsa que promoveu?
A senhora ministra falhou quando fez aprovar um modelo de gestão de escolas, castrador e centralizador. Não repito o que então aqui escrevi. Ainda os directores estão a chegar aos postos de obediência e já os factos me dão razão.
  • Invoco o caso do Agrupamento de Santo Onofre, onde gestores competentes e legalmente providos foram vergonhosamente substituídos;
  • lembro-lhe a história canalha de Fafe, prenúncio caricato de onde nos levará a municipalização e a entrega da gestão aos arrivistas partidários;
  • confronto-a com o silêncio cúmplice sobre a suspensão arbitrária de um professor em Tavira, porque o filho do autarca se magoou numa actividade escolar, sem qualquer culpa do docente.
Dá-se conta que não tem qualquer autoridade moral para falar de autonomia das escolas?

A senhora ministra falhou quando promoveu a escola que não ensina. Mostre ao país, a senhora que tanto ama as estatísticas, quanto tempo se leva hoje para fazer, de uma só tirada, os 7.º, 8.º e 9.º anos e, depois, os 10.º, 11.º e 12.º. E sustente, perante quem conhece, a pantomina que se desenvolveu à volta do politicamente correcto conceito de escola inclusiva, para lá manter, a qualquer preço, em ridículas formações pseudoprofissionais, os que antes sujavam as estatísticas que a senhora oportunistamente branqueou.
Ouse vir discutir publicamente a demagogia de prolongar até aos 18 anos a obrigatoriedade de frequentar a escola, no contexto do país real e quando estamos ainda tão longe de cumprir o actual período compulsivo, duas décadas volvidas sobre o respectivo anúncio.

Do mesmo passo, esclareça (ainda que aqui a responsabilidade seja partilhada) que diferenças existem entre o anterior exame ad hoc e o pós-moderno "mais de 23", para entrar na universidade.
Compreendo, portanto, que no pastel kafkiano a que chamou estatuto de carreira não se encontre o vocábulo ensinar. Lá nisso, reconheço, foi coerente. Só lhe faltou mudar o nome à casa onde pontifica. Devia chamar-se agora, com propriedade, Ministério da Certificação e das Novas Oportunidades. Não tem remorsos?
  • A senhora ministra falhou rotundamente quando promoveu um estatuto do aluno que não ajuda a lidar com a indisciplina generalizada; quando deu aos alunos o sinal de que podem passar sem pôr os pés nas aulas e, pasme-se, manifestou a vontade de proibir as reprovações, segundo a senhora, coisa retrógrada.
  • A senhora ministra falhou quando defendeu uma sociedade onde os pais não têm tempo para estar com os filhos. A senhora ministra falhou quando permitiu, repetidas vezes, que crianças fossem usadas em actividades de mera propaganda política.
  • A senhora ministra falhou quando encomendou e pagou a peso de ouro trabalhos que não foram executados, para além de serem de utilidade mais que duvidosa.
  • Voltou a falhar quando deslocou para os tribunais o local de interlocução com os seus parceiros sociais, consciente de que o Direito nem sempre tem que ver com a Justiça.
  • Falhou também quando baniu clássicos da nossa literatura e permitiu a redução da Filosofia.
  • Falhou ainda quando manipulou estatisticamente os resultados escolares e exibiu os que não se verificaram.
  • Falhou igualmente quando votou ao abandono crianças deficientes e professores nas vascas da morte.
  • Falhou, por fim, quando se deixou implicar no logro do falso relatório da OCDE e no deslumbramento saloio do Magalhães.
Por tudo isto e muito mais que aqui não cabe, a senhora é, em minha opinião, uma ministra falhada. Parte sem que eu por si nutra qualquer espécie de respeito político ou intelectual.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)


in Público, 13/05/2009

30/10/2010

Carta aberta à ministra da Educação *

* Maria de Lurdes Rodrigues




....................................................................


(Público , 22.11.2005)

por Santana Castilho*

1. No Liceu Nacional de Diogo Gouveia, em Beja, em 1953, sempre que um professor faltava, eu não podia sair da sala sem que o sr. Vieira ou o sr. Gil o permitissem. O sr. Vieira ou o sr. Gil, diligentes contínuos (assim se chamavam os “auxiliares educativos” de então), antes de darem a almejada ordem libertadora, certificavam-se, na sala de professores, se havia algum docente escalado, nesse momento, para dar a “aula de substituição”. Era assim, há 52 anos, no recôndito Alentejo, num liceu de instalações magníficas, com condições de trabalho ímpares, médico escolar diário (o saudoso dr. Flávio dos Santos) e outros recursos que seriam ainda hoje considerados luxuosos, se cotejados com a penúria de tantas escolas do Portugal democrático. Saudosismo? Não! Memória, que falta a muitos dos que hoje falam como se fossem únicos e acabassem de descobrir a solução para endireitar o mundo. Ninguém de bom senso questiona a necessidade de ocupar de forma útil os alunos a quem faltam professores. Só os insanos rejeitariam como importante o objectivo de diminuir a frequência com que essas situações acontecem. Mas “aulas de substituição”, para o serem, carecem de um docente da mesma área disciplinar, previamente avisado (e isso nem sempre é possível ) e conhecedor da fase didáctica em processo. Um professor de Português não poderá, naturalmente, substituir o colega de Matemática. As coisas não se passam como a ministra da Educação as imagina quando teve a infelicidade de, a propósito, interrogar: “Quantos professores de Português não gostariam de ir à escola de 1º ciclo ler poesia ou fazer umas graças?…”

Quanto a actividades de recurso, para ocupar alunos, são outra coisa e até lá cabem palhaços que façam umas graças. Mas podem ser organizadas sem práticas escabrosas e imposições ridículas, que perturbam a vida das escolas e avacalham o exercício da docência. Foi disso que os professores reclamaram na greve de sexta-feira. Mas a ministra da Educação não percebeu. 

2. No dia em que os professores fizeram greve, o Ministério da Educação tornou público o número de faltas dadas pelos docentes no ano lectivo passado. Foi uma iniciativa infeliz, eticamente reprovável. Porque visou denegrir junto da opinião pública, uma vez mais, a imagem dos professores. E, se dúvidas houvesse, lá estão declarações expressas da ministra: “Esta é a altura em que o país precisa de saber os factos…” Que factos? Segundo o Ministério da Educação, os professores terão faltado a cerca de 8 milhões de horas em cerca de 80 milhões possíveis, isto é, cerca de 10 por cento de faltas. Assim dito, tantos milhões esmagam. Assim apresentados, com a alusão à “altura em que o país precisa de saber os factos”, fica escancarada a porta da demagogia e do populismo: malandros, a furtarem-se ao trabalho! Ajudemos então a perceber os “factos”. Não se terão enganado nas contas? Há quem conte 150 milhões de aulas, o que reduz para metade a percentagem das faltas. Eu sei que cerca de 85 por cento dos professores são professoras. Quantas dessas faltas foram por parto? É que os meses de licença de parto, que certamente a ministra da Educação não quer abolir, têm um efeito demolidor nas conclusões estatísticas (se meio país comer um bife de lombo diariamente e o outro meio falir de inanição, os espertalhões da estatística poderão dizer que todos comem bife dia sim, dia não). Eu sei que metade do corpo docente está na última fase da carreira, envelhecida. Que impacte terá isso no absentismo? E o afastamento da residência? E são faltas ou são aulas não dadas, que é coisa diferente, por englobar razões não imputáveis aos professores? E se todas as faltas foram dadas ao abrigo de legislação feita por políticos, por que não censurá-los a eles e mudar o sistema?

Qualquer gestor de recursos humanos sensato e competente compreenderia que a questão era nada quanto a insinuar a malandrice dos colaboradores e tudo quanto a responder às duas questões cruciais: por que faltarão eles? Que deve ser feito para que faltem menos? Mas a ministra da Educação não percebe. 

3. A ministra da Educação parece ter uma particular atracção pelo afrontamento gratuito e pela instalação da instabilidade no sistema. Resolveu mexer na política dos manuais escolares, politizando uma questão que era técnica. Ao mandar para a Assembleia da República o que até agora era tratado pelos governos, não percebeu que accionou irremediavelmente o “complicómetro”. Ao instituir a censura prévia com a sua corte de sábios para dizer quem edita e quem não edita, não percebeu que pode estar a “franchisar” a corrupção. Ao desprezar arrogantemente os parceiros sociais, como é seu hábito, não percebeu que pode ter que editar sozinha os livros de que necessita. Ao sujeitar os preços a regime tabelado, não percebeu que o mundo se move em sentido inverso.

A ministra da Educação tem vários problemas, que a tornam cada dia menos desejável para o cargo. São todos eles problemas de percepção da realidade. Não sei se por ignorância intrínseca, se por obliteração socrática.

* professor do Ensino Superior (Público , 22.11.2005)

Carta aberta ao engenheiro José Sócrates

Público, Junho de 2005

Santana Castilho*



Esta é a terceira carta que lhe dirijo. As duas primeiras, motivadas por um convite que formulou mas não honrou, ficaram descortesmente sem resposta. A forma escolhida para a presente é obviamente retórica e assenta num direito que o Senhor ainda não eliminou: o de manifestar publicamente indignação perante a mentira e as opções injustas e erradas da governação.

Por acção e omissão, o Senhor deu uma boa achega à ideia, que ultimamente ganhou forma na sociedade portuguesa, segundo a qual os funcionários públicos seriam os responsáveis primeiros pelo descalabro das contas do Estado e pelos malefícios da nossa economia. Sendo a administração pública a própria imagem do Estado junto do cidadão comum, é quase masoquista o seu comportamento. Desminta, se puder, o que passo a afirmar:

1. Do Statistics in Focus n.º 41/2004, produzido pelo departamento oficial de estatísticas da União Europeia, retira-se que a despesa portuguesa com os salários e benefícios sociais dos funcionários públicos é inferior à mesma despesa média dos restantes países da Zona Euro.

2. Outra publicação da Comissão Europeia, L"Emploi en Europe 2003, permite comparar a percentagem dos empregados do Estado em relação à totalidade dos empregados de cada país da Europa dos 12. E que vemos? Que em média, nessa Europa, 25,6 por cento dos empregados são empregados do Estado, enquanto em Portugal essa percentagem é de apenas 18 por cento. Ou seja, a mais baixa
dos 12 países, com excepção da Espanha. As ricas Dinamarca e Suécia têm quase o dobro, respectivamente 32 e 32,6 por cento. Se fosse directa a relação entre o peso da administração pública e o défice, como estaria o défice destes dois países?

3. Um dos slogans mais usados é o do peso das despesas de saúde. A insuspeita OCDE diz que na Europa dos 15 o gasto médio por habitante é de 1458 euros. Em Portugal esse gasto é... 758 euros. Todos os restantes países, com excepção da Grécia, gastam mais que nós. A França 2730 euros, a Áustria 2139, a Irlanda 1688, a Finlândia 1539, a Dinamarca 1799, etc.

Com o anterior não pretendo dizer que a administração pública é um poço de virtudes. Não é. Presta serviços que não justificam o dinheiro que consome. Particularmente na saúde, na educação e na justiça. É um santuário de burocracia, de ineficiência e de ineficácia. Mas, infelizmente para o País, os mesmos paradigmas são transferíveis para o sector privado. Donde a questão não reside no maniqueísmo em que o Senhor e o seu ministro das Finanças caíram, lançando um perigoso anátema sobre o funcionalismo público.
A questão reside em corrigir o que está mal, seja público, seja privado. A questão reside em fazer escolhas acertadas. O Senhor optou pelas piores. De entre muitas razões que o espaço não permite, deixe-me que lhe aponte duas:

1. Sobre o sistema de reformas dos funcionários públicos têm-se dito barbaridades. Como é sabido, a taxa social sobre os salários cifra-se em 34,75 por cento (11 por cento pagos pelo trabalhador, 23,75 por cento pagos pelo patrão). Os funcionários públicos pagam os seus 11 por cento. Mas o seu patrão Estado não entrega mensalmente à Caixa Geral de Aposentações, como lhe competia e exige aos demais empregadores, os seus 23,75 por cento. E é assim que as "transferências" orçamentais assumem perante a opinião pública não esclarecida o odioso de serem formas de sugar os dinheiros públicos. Por outro lado, todos os funcionários públicos que entraram ao serviço em Setembro de 1993 já verão a sua reforma calculada segundo os critérios aplicados aos restantes portugueses. Estamos a falar de quase metade dos activos. E o sistema estabilizará nessa base em pouco mais de uma década.

Mas o seu pior erro, Senhor Engenheiro, foi ter escolhido para artífice das iniquidades que subjazem à sua política o ministro Campos Cunha, que não teve pruridos políticos, morais ou éticos por acumular aos seus 7000 euros de salário os 8000 de uma reforma conseguida com seis anos de serviço. E com a agravante de a obscena decisão legal que a suporta ter origem numa proposta de um colégio de que o próprio fazia parte.

2. Quando escolheu aumentar os impostos, viu o défice e ignorou a economia. Foi ao arrepio do que se passa na Europa. A Finlândia dos seu encantos baixou-os em quatro pontos percentuais, a Suécia em 3,3 e a Alemanha em 3,2. Porque não optou por cobrar os 3,2 mil milhões de euros que as empresas privadas devem à segurança social? Porque não pôs em prática um plano para fazer andar a execução das dívidas fiscais pendentes nos tribunais tributários e que somam 20.000 milhões de euros? Porque não actuou do lado dos benefícios fiscais, que em 2004 significaram 1000 milhões de euros?
Porque não modificou o quadro legal que permite aos bancos, que duplicaram lucros em época recessiva, pagar apenas 13 por cento de impostos? Porque não revogou a famigerada Reserva Fiscal de Investimento e a iníqua lei que permitiu à PT Telecom não pagar impostos pelos prejuízos que teve... no Brasil, o que, por junto, representará cerca de 6500 milhões de euros de receita fiscal perdida?

A verdade e a coragem foram atributos que Vossa Excelência invocou para se diferenciar dos seus opositores. Quando subiu os impostos, que perante milhões de portugueses garantiu que não subiria, ficámos todos esclarecidos sobre a sua verdade. Quando elegeu os desempregados, os reformados e os funcionários públicos como principais instrumentos de combate ao défice, percebemos de que teor é a sua coragem.

* Professor do ensino superior

de Santana Castilho e do seu 'Os Bonzos..'

retirado daqui


Na passada Quinta – Feira, dia 17 de Setembro, pelas 19.00 horas, realizou-se no Palácio Galveias, em Lisboa, o acto público de lançamento do livro “Os Bonzos da Estatística –Ideias Falsas que Travaram a Educação”, da autoria do Professor Santana Castilho, com Prefácio do Professor Fraústo da Silva, em publicação das Edições Pedago.


Perante uma sala repleta, fez a apresentação do livro o Presidente da AEPEC (Associação da Educação Pluridimensional e da Escola Cultural), Professor Manuel Ferreira Patrício.

Aqui se publica o texto da sua intevenção.



Manifestou o Professor Santana Castilho o desejo de que me coubesse a mim o encargo e a honra de apresentar este seu livro, Os Bonzos da Estatística - Ideias falsas que travaram a educação. Aceitei com gosto o convite. Somos amigos há bastante tempo e foi precisamente a coincidência de pontos de vista pedagógicos que nos aproximou. Quero agradecer-lhe o convite. Como vê, aqui estou. E estou bem acompanhado. É sempre motivo de satisfação íntima para mim partilhar com os colegas de profissão docente e todos os que se empenham no avanço e aperfeiçoamento da educação no nosso país momentos de encontro e reflexão sobre esta questão fundamental da Pátria nacional e da Pátria humana. É gratificante estar aqui convosco, no calor deste encontro. Mas vamos ao livro, que é obra.

*

Os textos que constituem este livro são 115, aos quais há a acrescentar um Prefácio, do Prof. Fraústo da Silva, e uma Introdução, do autor do livro.

Cada texto corresponde a uma intervenção saída no jornal Público, regularmente, creio que com periodicidade quinzenal. O livro cobre, portanto, um período correspondente a 330 semanas. Ou seja: 6 anos e um terço. Como a duração do Governo de José Sócrates é de 4 anos e meio, significa isto que a periodicidade não foi exactamente quinzenal, mas mais intensa do que isso. Porque o livro acompanha passo a passo a governação de José Sócrates. É como se fosse uma câmara de filmar que caminha no tempo rigorosamente a par dele. É, no seu todo, uma crónica, à maneira de Fernão Lopes. As coisas vão acontecendo e ele vai contando tudo. Tudo o que acha digno de registo, bem entendido. Fernão Lopes também não registou tudo. Ninguém regista tudo. Regista-se o que é necessário para uma descrição global e para uma interpretação global. Tudo sob a forma e alcançando o nível do pensamento crítico. Hoje não aceitamos um pensamento que não seja crítico. É assim desde Kant. Os governos, regra geral, não gostam. Preferem o pensamento insosso, sem o sal da crítica. Mas o pensamento democrático não pode deixar de ser crítico. Sob pena de não ser democrático. O livro Os Bonzos da Estatística é, a meu ver, a Crónica da Educação Portuguesa durante o Consulado de José Sócrates. É uma Crónica crítica, na linha da melhor tradição portuguesa. É um filme feito com afinco por um cineasta/realizador que pensa e quer induzir nos seus concidadãos a actividade de pensar. Pensar a sério, naturalmente. Ou seja, pensar criticamente. Ora pensar criticamente não é pensar ad hominem, não é criticar alguém com quem se antipatiza. Pensar criticamente é submeter ao método da crítica, é submeter à peneira que a crítica é, o pensamento ou a ausência de pensamento de alguém ou da obra de alguém. Criticar é joeirar - ensina a etimologia e ensinou aos estudantes da minha geração o Padre Manuel Antunes. É o que este livro é: um exercício profundo e rigoroso de pensamento crítico sobre uma política educativa prosseguida no nosso país ao longo dos últimos quatro anos e meio.

Manuel Santana Castilho é Professor Coordenador de Organização e Gestão do Ensino na Escola Superior de Educação de Santarém, à qual presidiu, bem como ao seu Conselho Científico. É, pois, um académico da área científica das Ciências da Educação. Foi, durante um curto período, governante, tendo integrado o VIII Governo Constitucional. É extensa e notável a sua actividade como publicista, incidindo as suas análises e intervenções sobre Política de Educação.

Como o nome desde logo indica, a Política da Educação é uma área científica de topo no mundo da Educação. Porque é a política que comanda a Educação dos Estados e das Comunidades, às suas orientações e decisões tendo de submeter-se a actividade educativa propriamente dita, desde uma Lei de Bases à mais aparentemente insignificante circular ou ao ainda institucionalmente mais modesto despacho oral, modesto mas por vezes de enorme importância substantiva concreta. Numa hierarquia da acção educativa concreta a Política da Educação é, pois, detentora de uma posição estratégica fundamental.

Santana Castilho é um homem frontal, dos que dizem o que pensam e não têm medo de tornar públicas as suas opiniões e posições, cumprindo um mandamento fundamental das sociedades livres e democráticas. Sintetizando o ideal e o programa das Luzes, na segunda metade do século XVIII, escreveu Kant: Sapere aude, Ousa saber. Saber significa aqui pensar, conhecer, criticamente. A todos nos disse Kant, portanto: Ousa conhecer criticamente. A humanidade europeia e ocidental ouviu o grande filósofo de Königsberg. Mas hoje temos a nítida percepção de que não basta pensar, não basta conhecer, ainda que criticamente. É preciso, é indispensável, é imperioso comunicar. Essa é, talvez, a grande mensagem que o neokantiano da Escola de Frankfurt, Jürgen Habermas, nos trouxe: a ideia e o programa do agir comunicacional. Urge comunicar ao outro, urge comunicar à sociedade, aquilo que eu penso, aquilo que eu conheço criticamente, e desta acção comunicativa resulta a construção do «nós» que não apenas ousa, já ousou, está ousando, conhecer criticamente, mas transmuta o conhecimento, mesmo que já crítico, em acção transformadora da realidade. As crónicas de Santana Castilho reunidas neste livro são acções comunicativas críticas visando o nascimento da luz comum para transformar a realidade que é comum, mesmo que alguns o não queiram e dela se queiram apropriar como se proprietários da sociedade fossem. Não são. Não vão ser. Esse é o grito de ousadia kantiano que sai poderoso e sereno, e bem fundamentado, de cada página, de cada crónica, da Crónica da Educação Portuguesa presente e recente que é este livro. Esse é o passe de agir comunicacional, a faena elegante e fatal deste magnífico toureiro que é Santana Castilho, que projecta o conhecimento crítico da Educação portuguesa do diâmetro solipsista da consciência individual para o diâmetro universal da consciência colectiva; que muda, portanto, o sujeito de «eu» em «nós».

Uma leitura restritiva deste livro pode levar a pensar que ele se limita a analisar a Educação portuguesa, fechando esta hermeticamente no que se entende ser o seu território exclusivo. Uma tal leitura restritiva seria uma leitura completamente errada. O que Terêncio disse do ser humano, qualquer de nós, seja qual for o seu lugar ou actividade na sociedade, o pode dizer da Educação. Terêncio disse assim: «Nada do que é humano me é alheio.» Todos podem dizer assim: «Nada do que respeita à Educação me é alheio.» A Educação é, de facto, a fonte onde o ser humano bebe a sua própria humanitas, a sua própria humanidade, como com as suas palavras deixou Kant escrito no tratado Antropologia do ponto de vista pragmático. A humanidade do homem deflui da Educação, depende absolutamente da Educação.

Um tão longo passeio como este pela planície alentejana da reflexão tem um fito. Um alentejano não dá ponto sem nó. E o fito é este: Santana Castilho fala, nos seus textos, neste seu livro, nesta sua Crónica da Educação Portuguesa nos anos do consulado de José Sócrates, não apenas directamente da Educação, mas também, e envolvendo tudo isso, da teia de condições de possibilidade da Educação portuguesa neste período. Ou seja: a política educativa é condicionada pela política geral e pelas políticas sectoriais. O primeiro período do primeiro texto - da primeira crónica, como mais certo me parece dizer - não nos deixa desde logo dúvidas sobre a visão estratégica do autor. Leio: «O processo de constituição do Governo marcou, obviamente, uma diferença de estilos.» (Os bonzos da Estatística, p. 17) É da crónica do Governo que se trata, não da crónica do Ministério da Educação. Também não é de José Sócrates que se trata. José Sócrates é apenas o Primeiro-Ministro do Governo, ainda que mais se tenha cada dia vindo a parecer com o Presidente do Conselho de Ministros ou, então, o Chefe do Governo. O teor da análise e da escrita de Santana Castilho vai mudando à medida que vai mudando a realidade criticamente analisada. Ele é um espelho e um espelho crítico. As diferenças ou contradições que eventualmente reflecte estão nas imagens que chegam ao espelho. Não são dele. É um dos inconvenientes do espelho, para uns; é uma vantagem do espelho, para nós. A mim parece-me que os contrastes, para não dizer as contradições, que o espelho nos dá a ver, são como que flores do mal, como talvez se exprimisse o grande Baudelaire.

O título do livro é feliz, ainda que dê que pensar. Não tenho a mesma opinião da capa. Mas, enfim, os livros não são as suas capas. A capa faz parte da indumentária do livro. A capa veste o livro. O livro é o que fica dentro da capa. É do livro que vos quero aqui falar um pouco.

Voltemos ao título: Os Bonzos da Estatística. Ideias Falsas Que Travaram a Educação. Os Bonzos. O que é um bonzo? Pego no primeiro Dicionário que conheci e possuí na vida: o Novo Dicionário da Língua Portuguesa para os estudantes e para o povo, de Francisco Torrinha (Porto, Editorial Domingos Barreira, 1950). Leio, no verbete «bonzo»: sacerdote budista; mau escritor; mau apóstolo dum ideal; homem macambúzio. Penso na educação portuguesa actual: pondo de parte o que respeita ao sacerdote budista, o resto aplica-se aos protagonistas políticos do momento e seus executores e propagandistas. Constituem, no seu conjunto, uma espécie de clero. Nesse sentido, são o equivalente a monges. Bonzos. Com as suas vestes sacerdotais, o seu andar hierático, a sua postura sacral, o seu distanciamento da multidão vulgar, a sua assunção da pertença a uma casta nobre e sábia. Bonzos. Precisamente. Todavia, não são bonzos budistas. São bonzos da Estatística. Esperaríamos que fossem os bonzos da Educação. Afinal, são da Estatística. Que relação tem a Estatística com a Educação? Aprendemos todos, quando aprendemos isso, que a Estatística da Educação dá o retrato quantitativo desta. Hoje não é assim. Hoje a Estatística diz imperativamente o que é a Educação. É ela que lhe desenha o rosto. Ou o retrato. Que o pinta. Que o pinta a seu modo, e a seu jeito, na sua linguagem, para desfigurar a Educação propriamente dita, colocando-a a servir os interesses que ela, Estatística, serve. Quem ordena, quem manda, são os bonzos do título (do livro) e dos títulos (da praça, do mercado político e associados). Tudo isto é falso, todos nós sabemos. O subtítulo em parte o diz: «Ideias Falsas Que Travaram a Educação». Mas a falsidade vai mais longe, como se infere da referência aos bonzos, à Estatística, e à utilização que os bonzos fazem da Estatística, para desvirtuar a própria ideia de Educação. E, aliás, não apenas para desvirtuar mas, mais gravemente, para perverter, degradar, fazer degenerar a ideia e a prática - profissional, social, cultural e pedagógica - da Educação. Talvez, afinal, a capa - com o que sugere de cartoon irónico, satírico e crítico - passe uma mensagem mais interessante, intencional e profunda do que parecerá à primeira vista. A ironia, escreveu José Régio - o grande escritor que nós lemos e gostaríamos que outros também lessem -, no romance Jogo da Cabra Cega, a ironia é actividade exclusiva dos animais inteligentes.

Este livro, a partir da capa, é irónico. Da grande ironia, que Régio assinala em Nietzsche. Mas a capa, para usar agora outra metáfora, não é mais do que a porta a que batemos, para entrar. Entremos. Recebe-nos, logo no vestíbulo, o Professor Fraústo da Silva, com seu Prefácio na mão. Lemo-lo. Diz coisas importantes sobre o autor do livro, sobre a relação dele com o autor do livro, sobre a relação de ambos com a governação política da educação portuguesa, em tempos que já lá vão mas que ainda se demoram por aí, no seu pior, sobre o conteúdo e sentido da análise crítica do autor, sobre a necessidade de pensar a educação que é a nossa - a sociedade, os pais, os professores -; diz, finalmente, coisas importantes sobre a necessidade e valor da crítica e do pensamento informado e responsável que a sustenta. Olhando para Portugal e para o estado actual do mundo, escreve com contida amargura o Professor Fraústo da Silva: «A vida tornou-se muito difícil e os resultados estão à vista e tendem a piorar. A sociedade “self-service” e libertina, que vai aumentando dia a dia, está a gerar um futuro nebuloso e dramático, que me angustia mas que não posso nem sei resolver. Tudo isto, associado à miséria noutros continentes, tende a transformar o que poderia ser um relativo paraíso tranquilo num verdadeiro inferno incontrolável.» (p. 13) É neste preciso ponto que o pensamento crítico, a crítica consequente e finalmente o agir comunicacional e transformador da realidade se impõe a todos nós como um dever cívico, à escala do nosso canteiro do jardim e à escala do jardim inteiro, planetário. As palavras com que o Professor Fraústo termina a recepção que nos faz são estas: «A verdade é que todos somos responsáveis pelo estado a que chegámos.» (p. 13) A que «isto» chegou - traduzo eu.

*

Este livro começou por não ser um livro. Nasceu como nascem os rios. Águas novas vão chegando, continuamente, e ele vai engrossando o caudal, até chegar a ser o grande lago vivo para que estou a olhar. Um lago de 318 páginas.

Diz-nos o autor, Santana Castilho, na Introdução, que este livro é uma colectânea de artigos publicados regularmente no Público ao longo do período correspondente à vida do actual Governo. O primeiro artigo tem a data de 12 de Março de 2005, o último vem datado de 19 de Agosto de 2009, portanto tem menos de um mês.

Interroga-se ele, sendo as coisas assim: «Fará sentido verter para papel de livro o que se escreveu em papel de jornal?» (p. 15) Responde afirmativamente: «Uma crónica de jornal reflecte o espírito dum tempo e o modo como o autor o leu. Sucumbe com o jornal, sarcófago das emoções do cronista, na voracidade do dia seguinte. O livro perdura, vence o tempo e permite uma leitura conjunta do que foi atirado ao vento.» (p. 15) Está explicado e bem explicado. No Alentejo diz-se, ou dizia-se, em vez de «atirado ao vento»: foi aventado. Atenção! O aventar depende, na sua eficácia, da mão que aventa. A mão que aventou estes textos, todos eles muito bem pensados e escritos e obedecendo a uma visão coerente, sistemática e prospectiva da educação portuguesa, é uma mão de David: acerta na testa de Golias. O aventador sabe-o. Diz-nos ele que o conjunto destas crónicas «tem um fio condutor e uma unidade de pensamento». (p. 15) Qual unidade? A sua «oposição, desde o primeiro momento, às políticas de José Sócrates, para a Educação, e não só», apresentando muitas das razões nos próprios textos. (p. 15)

A primeira crónica, «Esperar para ver», é cautelosa, mas desde logo exigente. Não sabe se Sócrates tem ideias, mas na hipótese de as ter «tem que as partilhar connosco» (p.17). Apresenta um retrato a la minuta da situação nas nossas escolas: «O ambiente das nossas escolas é genericamente insatisfatório.» (p. 17) «O insucesso e o abandono escolares são abordados quase sempre pela via do nivelamento por baixo.» (p. 18) Politicamente, não é dada importância à Educação. «Neste quadro, Maria de Lurdes Rodrigues não é certamente a pessoa mais competente para assumir a ciclópica tarefa que a espera, se quiser fazer certo. Porque lhe falta conhecimento detalhado do sistema.» (p. 19) Premonitoriamente, pergunta: «A inteligência, a determinação e o sentido prático que me dizem possuir chegarão? Vamos esperar para ver.» (p. 19) Não foi preciso esperar muito. Também sobre o Ministro da Ciência, Mariano Gago, a atitude é a mesma. Faz dele um juízo mais favorável, à partida, mas em relação à ciência, não em relação ao ensino superior.

Duas semanas depois, na crónica de 26 de Março de 2005, já tinha visto mais e esperava menos e pior. Aprecia o programa do Governo que iria servir de referência ao Ministério da Educação. Conclui: «Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma» (p. 20). E isto tanto no que respeitava ao Ministério da Educação como no que tocava ao Ministério da Ciência e do Ensino Superior e ainda no concernente à relação que teria (que tem) de haver entre eles.

O tempo foi passando. Santana Castilho foi observando, analisando, criticando. Um autêntico marinheiro português de Quatrocentos e Quinhentos na gávea. Um gajeiro. Termina 2005. Começa 2006. Faz o seu balanço. Negativo. Muito negativo. Relevam-se os seguintes pontos:
  • «A colocação dos professores a tempo e horas granjeou os primeiros elogios imerecidos [apresenta duas razões, fortes, em defesa do seu juízo] à actual ministra [então e agora].» (p. 80)
  • Foi desastrada a forma como se materializou o prolongamento do tempo de abertura das escolas do ensino básico e medidas de enquadramento de alunos em situação de falta de professores às aulas previstas. (p. 81)
  • Fomentou-se a raiva do país contra os seus professores, «com a pouco ética manipulação das estatísticas relativas às faltas dos docentes, divulgadas maliciosamente no dia da greve nacional.» (p. 81)
  • A intervenção no livro escolar, anunciada em termos de censura prévia, prenunciava «o escaqueirar do sector.» (p. 81)
  • Reabriu-se a guerra dos exames, abolindo-os hoje, reabrindo-os no dia seguinte. «Português porque sim, Filosofia porque não.» (p. 81)
  • A questão da decisão de mandar retirar os crucifixos «por burocrática circular», confundindo o carácter laico do Estado português com jacobinismo primário. (p. 82)
  • A trapalhada havida com a Educação Sexual, desrespeitando profissionais competentes e ignorando os pais e as famílias. (p. 82)


Não se pode deixar de reconhecer que o autor foi exaustivo na análise das políticas prosseguidas e rigoroso no julgamento das mesmas. A sentença relativa a 2005 é devastadora e sem esperança: «É impossível ter esperança com esta gente.» (p. 82) Remata, sem contemplações: «Feito o diagnóstico, está feito o prognóstico: 2006 será como 2005. Resta resistir.» (p. 82) Palavras publicadas no Público no primeiro dia útil do novo ano, que logo anuncia como um ano velho. Igual a 2005?... Ou pior?... Vejamos o que escreveu um ano depois.

Na crónica publicada no Público de 4 de Dezembro de 2006 é-nos contada a história do silenciamento da revista “Pontos nos ii”, que de um dia para o outro, e de forma democraticamente inacreditável, ficou sem pontos e sem ii. Era um sinal claríssimo, inequívoco, de regresso da pata pesada do Estado sobre a sociedade civil e do cerceamento objectivo da liberdade de expressão do pensamento, de publicação da crítica, de uma prática elementar da democracia. Era o regresso do medo: medo a dominar muitos professores, «que falaram sobre sigilo, com receio de represálias»; medo que atingiu «responsáveis», que «recusaram falar por não estarem autorizados e por medo». (p. 150) Falando, mais uma vez, profeticamente, Santana Castilho, que não tem medo, clama: «O medo é palavra que está de volta à nossa sociedade e às nossas escolas. Sob outra forma, noutro contexto, mas medo. Medo de falar. Medo de perder o emprego.» (p. 150)

Serão excessivas estas palavras? Sê-lo-iam ao passar a ponte de 2006 para 2007? Ou estava o autor deste livro apenas a exercer o direito do que Mário Soares designou, em circunstância que todos lembramos, o direito à indignação? Indignação activa, que é a verdadeira e legítima indignação. Quem terá dúvidas em responder após termos vivido no medo durante 48 anos, quase meio século, tempo mais do que suficiente para termos ficado fartos?!... Analista qualificado de políticas, especialista em Políticas de Educação, que 2007 antevê ele? O que irá reforçar esta atmosfera de sufoco da liberdade e de incompreensão completa da natureza e finalidades da educação, por parte de uma esquerda que a si mesma se qualifica de «moderna» e que parece entender que a melhoria da educação depende apenas dos (transitórios) detentores do poder, quando ela depende, também, dos actores do sistema e de toda a sociedade. (p. 154) Dou a palavra, neste ponto preciso da passagem ânua da ponte de 2006-2007, a Santana Castilho: «Na Educação encontramos um belo paradigma da boçalidade, da incultura e da falta de visão estratégica da «esquerda moderna»: qualquer mudança, desde que reduza, economize e afronte os professores é progressista.» (p. 154) Segue-se o remate: «Foi com esta preocupação dominante que 2006 encerrou. Mas não será com tal política que 2007 gerará progresso.» (p. 155) Não se avança recuando. Não é moderno o que criticávamos no centralismo soviético.

E continua o autor destas minuciosas e corajosas análises de câmara crítica de filmar em punho pelo ano de 2007 em diante. Chegado ao fim, faz o seu balanço. Diz, fulminante, na sua crónica de 24 de Dezembro de 2007, como quem nega por falta grave a tradicional prenda de Natal: «Três tópicos chegam para reprovar 2007». (p. 214) Ei-los, sumarissimamente apresentados:
  • Entendamo-nos sobre o investimento em educação. «Um país que gaste percentualmente metade de outro, mas que tenha um PIB seis vezes superior, investe, em valor absoluto, 3 vezes mais. E é isso que conta.» (p. 214) Relativamente à política educativa prosseguida em 2007, que é a que estava a seguir, pronuncia-se assim: «A paixão de Guterres aproximou a percentagem dos gastos com a educação aos seis por cento do PIB. A prioridade de Sócrates emagreceu-a para 3,5.» (p. 215)
  • O abaixamento, a degradação, da qualidade elementar da educação que o sistema educativo português está a levar a cabo é grave e chocante. «No último debate parlamentar [de 2007] [...] pintou-se a realidade com a demagogia [...] dos êxitos estatísticos». (p. 215) Santana Castilho responde a essa patética operação com a simplicidade do menino do conto tradicional, a criança que viu e disse que o rei ia nu: «Um país que diz aos seus adultos que chegou a altura de terem a escolaridade obrigatória sem frequentar a escola», aos seus jovens que podem nem sequer lá pôr os pés que não reprovam por isso e que organiza cursos de formação de jogadores de futebol com garantia de equivalência a diplomas escolares, deve pensar seriamente em reabrir a Universidade Independente.» (p. 215) Acrescenta, com a mordacidade do tigre: «Os governantes futuros precisam dela.» (p. 215)
  • O ataque liquidatário ao chamado ensino especial chega por si para uma condenação global da política educativa prosseguida em 2007.

A primeira crónica de 2008 intitula-se: «Por que muda a gestão das escolas? Porque sim!» (pp. 216-219). É de 8 de Janeiro de 2008. O ano político educativo começa muito mal para o autor deste livro. Comparando o novo diploma sobre a gestão das escolas com o anterior, conclui que: 1 - «Os dois diplomas apregoam autonomia mas castram toda e qualquer livre iniciativa das escolas»; 2 - «O novo diploma diminui o peso dos professores da escola nos órgãos de gestão dessa escola». (p. 216) A análise a que procede leva-o a concluir que este diploma é o elo que faltava para transformar por completo a Escola Pública num deserto. (p. 219)

2008 é um ano histórico na educação portuguesa: é o ano da revolta dos professores. Todos os cidadãos minimamente atentos puderam aperceber-se da espantosa dimensão dessa revolta, que aparentemente só não impressionou o Ministério da Educação e genericamente o Governo. Na raiz desta histórica revolta vê Santana Castilho três medidas hostis à classe docente: 1 – O horário de trabalho dos professores foi drasticamente aumentado; 2 – A carreira única foi fracturada em duas, com a emergência dos professores titulares, acção servida por um processo escabroso; 3 – O modelo de avaliação do desempenho revela-se insensato e irresponsável, tecnicamente medíocre, leviano nos prazos que impõe, fantasioso na organização institucional que pressupõe; está eivado de critérios ridiculamente subjectivos. (p. 227) A data da crónica escalpelizadora do autor é 5 de Março. A que cronologicamente se lhe seguiu faz o levantamento das principais linhas de força de uma análise crítica do modelo de avaliação do desempenho que então o Ministério e o Primeiro-Ministro defendiam intransigentemente. Tal análise exibe um argumentário que, que seja do meu conhecimento, nunca teve qualquer resposta por parte de quem a devia dar. Era o dia 20 de Março de 2008.

À medida que a educação real do país se vai degradando e verdadeiramente decompondo como se de um corpo morto se tratasse, o discurso de Santana Castilho vai endurecendo na substância, que não necessariamente na forma. Vai ganhando, também, um alcance mais vasto. A responsabilidade do estado a que as coisas chegaram já não é assacada em exclusivo a este Ministério da Educação e a este Governo, mas no fundo ao próprio regime democrático saído do 25 de Abril de 1974. A crónica de 30 de Abril de 2008 devia levar-nos a todos a reflectir sobre o que temos feito do regime democrático e o que tem este feito pela educação de Portugal. Salazar foi «Presidente do Conselho» durante 36 anos (entre 1932 e 1968). Em 2008, o regime democrático saído do 25 de Abril de 1974 cumpriu 34 anos. A crónica de 30 de Abril de 2008 tem por título: «Educação: 34 anos de instabilidade». (pp. 236-238). Corajosamente, escreve o autor: «Os portugueses politicamente mais reflexivos poderão divergir na especialidade, mas certamente acordarão na generalidade: os 34 anos de vida da escola da democracia são marcados pela permanente instabilidade e pelo infeliz desconcerto político sobre o que é verdadeiramente importante num sistema educativo.» (p. 236) Só quem não conhece por dentro o sistema educativo português, em todos os níveis deste, ou quer por vinculação ideológica ignorar a própria realidade, contestará estas lúcidas palavras. Não temos estado à altura das exigências de uma verdadeira democracia. Não a temos usado, não a temos servido; temos abusado dela, temo-nos servido dela.

Grandes chagas da nossa educação são verberadas implacavelmente neste livro e chamadas pelos seus nomes. Mas se o rei vai nu, porque havemos de dizer que vai vestido? Ou somos cegos, ou somos cobardes. Qualquer dos termos da alternativa é mau. Uma das chagas postas à vista do país por Santana Castilho é a do insucesso escolar, por artes do diabo transformado em sucesso administrativo e logo estatístico. A denúncia da declaração da ministra de que «os chumbos são um mecanismo retrógrado, antigo» é a denúncia de uma demagogia maligna para o país e o seu futuro que importa combater sem tibieza, sem contemplações. Eu compreendo e aplaudo estas palavras de Santana Castilho: «Entendamo-nos: a missão da escola é ensinar a todos os alunos que a demandam aquilo que está previsto. Mas a sua responsabilidade também é certificar, para utilização da sociedade, o conhecimento que os jovens aí adquirem. Dizer que o possuem sem o terem é uma fraude.» (p. 240) Mais, acrescentarei por minha conta: é um grave atentado à sustentabilidade do País. Há certas afirmações que, só por si, num Estado saudável chumbariam o responsável político que as proferiu.

E o ano de 2008 vai avançando. E a atmosfera é cada vez mais deprimente. Uma funda tristeza me vai invadindo à medida que, lendo as crónicas que se sucedem, desaba sobre mim o desgosto sobre o estado de putrefacção em que se encontra a educação deste país que amo e ao qual dediquei a minha vida inteira no sector da educação. Ainda, já aposentado após quase meio século de trabalho insano no que agora gostam de chamar a Escola Pública (nunca trabalhei noutra, devo dizer...), à educação teimo em continuar a dar o melhor de mim mesmo.

A primeira crónica de 2009, de 7 de Janeiro, tem este título que soa a Requiem: «Há mais vida para lá da avaliação». Que vida? Para responder a esta questão é preciso pensar: pensar a educação. Mas pensar é actividade que esta geração de tecnocratas auto-convencidos e no fundo falhados quer banir da educação, da sociedade da sabedoria – muito superior à tão exaltada sociedade do conhecimento –, da existência humana.

Ao iniciar este ano de 2009, em que nos encontramos, escrevia Santana Castilho a fechar a sua crónica: «Amanhã vota-se na Assembleia da República a suspensão da avaliação do desempenho dos professores. No dia 19 há de novo greve. Gastámos um ano conflituando violentamente em círculo. Encerrámo-lo, rodeados de cacos, no ponto de partida. Entramos 2009 como passámos 2008, sem atender a que há mais vida para lá da avaliação. Um dia acordaremos. E seja em que ano for, esse será um bom ano!». (p. 275) Até agora, afinal de contas, 2009 não é um bom ano. Nas crónicas de Santana Castilho vai-se instalando uma atmosfera pesada e triste de velório. Estamos já a velar personagens falecidos. Quase me provoca um arrepio a ideia de que ali, estendido na urna, está o País. Em putrefacção. Como confirma o título da crónica (e toda a crónica!) de 1 de Abril de 2009. (pp. 286-288).

Mas não podemos desanimar. Não podemos desistir. Também não podemos limitar-nos a resistir. As sociedades humanas constroem-se: com ideias, com sentimentos, com vontade, com actos, com obra. É para essa construção, que tem no nosso caso de incluir uma ampla reconstrução, que Santana Castilho nos convoca. Este livro faz parte dessa convocatória. Por mim, agradeço ter sido convocado. Vamos pensar, vamos escolher, vamos agir. Sem acreditar nos outros e no futuro não há Educação. Estamos aqui porque acreditamos. Obrigado, cidadão Santana Castilho. Obrigado, colega e amigo. Somos educadores, somos professores, e estamos determinados a assumir as nossas responsabilidades.

Sinto, finalmente, que é um acto de justiça envolver neste agradecimento a editora deste livro, as Edições Pedago, com um abraço especial de estima ao Dr. Pedo Patacho e à família do ISCE, lembrando comovidamente o saudoso Dr. Pais Martins, que partiu mas afinal continua connosco.

Manuel Ferreira Patrício 

Lisboa, 17 de Setembro de 2009

Introdução a "Os Bonzos da Estatística"

Título: Os Bonzos da Estatística – Ideias Falsas que Travaram a Educação
Autor: Santana Castilho
Editora: Edições Pedago
Data: Setembro de 2009



Introdução

A quem não se aliste num partido sobram poucas variantes de intervenção política. A escrita é uma delas. Ao “Público”, meu jornal diário desde que nasceu, devo o privilégio de poder sujeitar ao juízo exigente dos seus leitores artigos de análise de política de Educação.

Há oito anos que escrevo no “Público”, de forma sistemática, mesmo sem interrupção durante as férias. Ora estava eu justamente posto em sossego, durante férias que não quis, quando a “Pedago” me manifestou interesse em dar forma de livro às minhas crónicas.

Fará sentido verter para papel de livro o que se escreveu em papel de jornal?
Uma crónica de jornal reflecte o espírito dum tempo e o modo como o autor o leu. Sucumbe com o jornal, sarcófago das emoções do cronista, na voracidade do dia seguinte. O livro perdura, vence o tempo e permite uma leitura conjunta do que foi atirado ao vento. Penso que há tempos que, para não serem esquecidos, porque não devem ser esquecidos, justificam que se fixe em livro o que se escreveu para jornal. O leitor desta colectânea dirá se tenho razão.

O tempo a que me referi foi o critério que delimitou o período para colectar as crónicas: são as escritas durante a vida do actual Governo. O seu conjunto tem um fio condutor e uma unidade de pensamento: a minha oposição, desde o primeiro momento, às políticas de José Sócrates, para a Educação, e não só. Muitas das razões estão bem expressas nos próprios textos. Outras poderão, um dia, vir a lume.

Os textos aparecem sob a versão original, apenas poupados a uma ou outra gralha que, desta feita, não escaparam, e estão organizados segundo a cronologia da publicação. Pensei contextualizar, em notas de rodapé, referências implícitas a factos políticos da altura em que foram escritos e que hoje podem prejudicar a percepção de algumas significâncias por parte dos menos atentos á política. Mas acabei desistindo porque me pareceu serem interrupções de leitura, indesejáveis em textos curtos.

Para além de apresentar o volume, esta introdução quer exprimir agradecimentos. Ao Nuno Pacheco, um grande jornalista. Aos leitores, particularmente aos que me escreveram. De entre estes, àqueles que, sendo professores, me disseram coisas que guardo no coração.

Santana Castilho

*

do porquê deste blogue

.

Fiz este blogue de homenagem ao Professor Santana Castilho, em primeiro lugar, pelo muito que o admiro e pelo reconhecimento que lhe devo - eu, e todos os professores deste país.


Fi-lo também porque me incomodam alguns comentários que vou encontrando pela blogosfera, nomeadamente por parte de professores, e que denotam, não só uma insana ingratidão, como uma imensa ignorância sobre o passado e o presente deste Homem e a sua cruzada pela causa da Educação em Portugal.


O que pretendo, para além da compilação dos artigos quinzenais de Santana Castilho no jornal Público, é dar a conhecer a dedicação de praticamente toda uma vida:
- em defesa dos valores (humanos e sociais), 
- de políticas educativas coerentes e eficazes, 
- da dignificação dos professores, 
- de uma Escola Pública pautada por critérios de exigência e qualidade.

.


Até agora, publiquei neste espaço aquilo que fui encontrando 'por aí'. Aos autores de cujas fotos e dedicatórias me apropriei, deixo os meus agradecimentos.
.
.

Este é, pois, um blogue sobre e para Santana Castilho, um Homem bom e solidário, que a todos nós tem vindo a servir com a acutilância da sua inteligência, a justeza e a clarividência das suas posições, a incansável tenacidade da sua luta, a ousada verticalidade do seu carácter.


Ana Lima, 
editora deste blogue 



3 comentários:


maria disse...
Agradeço à Ana Lima a edição deste blogue. Bem-haja.
AL disse...
olá Maria, obrigada! - eu é que fico contente por poder partilhá-lo!
Miguel Ângelo disse...
É justo este blog.