04/07/2012

A paranóia normativa e a permissividade escandalosa

Público, 4 de Julho de 2012
A paranóia normativa e a permissividade escandalosa
Santana Castilho *

1. Voltámos ao tempo das torrentes de legislação selvagem na Educação. Vale tudo para impor o reformismo louco de Nuno Crato. Menorizar as actividades físicas e desportivas da juventude em idade escolar é intelectualmente retrógrado, factualmente estúpido e pedagogicamente criminoso. Pôr os alunos do 1º ciclo a fazer exames no início do 3º período é demência pedagógica. Que vida terão no 3º período os professores e os alunos que já fizeram exame e já “passaram”? Prolongar por mais um mês o ano-lectivo para os alunos que vão “chumbar”, depois de durante o ano se terem retirado recursos para resolver problemas específicos de aprendizagem, é masoquismo pedagógico. Quem assim decide saberá em que condições chegam ao fim do ano professores e alunos? Pensar em novos “cursos de ensino vocacional” para crianças de nove ou dez anos de idade é darwinismo pedagógico, que anseia pela próxima etapa: ferrá-las no berço. Ordenar aos directores que indiquem a componente lectiva dos seus docentes, de dois a seis de Julho, quando tudo o que é necessário para a calcular não é ainda conhecido, é aldrabice pedagógica. 

A última pérola da paranóia normativa do ministro, as metas curriculares para o ensino básico, foi apresentada em conferência de imprensa. Nuno Crato, definitivamente convertido ao “eduquês”, disse que se destinam “a definir com clareza o que se quer que cada aluno aprenda” e que são “objectivos cognitivos muito claros para professores e alunos”. Oh, se são! Tão claros (especialmente para alunos) como se depreende dos nacos que transcrevo, a título de exemplo (os três primeiros de Português e os dois últimos de Educação Visual):

 - “Ler pelo menos 45 de 60 pseudo-palavras (sequências de letras que não têm significado mas que poderiam ser palavras em português) monossilábicas, dissilábicas e trissilábicas (em 4 sessões de 15 pseudo-palavras cada). “
- “ Ler corretamente, por minuto, no mínimo 40 palavras de uma lista de palavras de um texto apresentadas quase aleatoriamente”.
- “ Reunir numa sílaba os primeiros fonemas de duas palavras ( por exemplo, “cachorro irritado” --> “Ki”), cometendo poucos erros”.
- “Distinguir características dos vários materiais riscadores…”
- “Reconhecer e articular elementos da Teoria da Gestalt no âmbito da comunicação (continuidade, segregação, semelhança, unidade, proximidade, pregnância e fechamento).” 

Gosto particularmente, em matéria de clareza, do “quase aleatoriamente” (julgava eu que ou era aleatoriamente ou sequencialmente e fim de papo) e do “cometendo poucos erros” (dez serão poucos?). Em matéria de erudição desvanecem-me, dado que nos ocupamos do ensino básico, aquela cena do “cachorro irritado”, os “materiais riscadores”, a “pregnância” e o “fechamento”. Se quiserem muito mais, sirvam-se. Só para o Português e Matemática são para aí 180 objectivos e só 700 descritores. Fora o resto. É óbvio que meninos e professores agora é que se vão concentrar em tão poucas metas, os primeiros aprendendo como nunca e os segundos ensinando como jamais.

2. A história é rápida de contar mas já demorou demasiado a resolver. A 16 de Julho de 2011, verificou-se a eleição do actual director do Agrupamento de Escolas de Dr. João Araújo Correia, de Peso da Régua. O acto viria a ser impugnado junto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Mirandela, por outro candidato, que alegou ter o eleito prestado falsas declarações, designadamente dizendo possuir uma licenciatura que nunca possuiu. Do mesmo passo, a Inspecção-Geral da Educação e Ciência abriu um inquérito. Passou quase um ano e não há decisão sobre uma coisa que não precisaria de qualquer inquérito. Com efeito, é exigível que os serviços administrativos certifiquem, na hora, se um professor é licenciado ou não, sendo certo que há anos lhe paga como tal e até o nomeou Professor Titular, quando a categoria existia e exigia o grau de licenciado. A universidade onde o director estudou certificou que ele não tinha concluído a licenciatura. Essa certidão é do conhecimento dos intervenientes. Entretanto, houve decisão judicial, que anulou o acto de admissão a concurso do actual director, considerou que ele prestou falsas declarações no que toca à licenciatura e mandou repetir o processo, com a sua exclusão. Desta decisão podia recorrer o director, que recorreu, e a Direção-regional de Educação do Norte que, ao não recorrer, aceitou a decisão do tribunal. Exige-se, agora, rápida prova de vida do secretário de Estado do Ensino e Administração Educativa, que também está ao corrente desta saga, ou do director-regional de educação do Norte ou da inspectora-geral da Educação e Ciência. Ou deles todos, de mãozinhas dadas, por causa dos papões autárquicos. É que o processo judicial é uma coisa e o disciplinar outra. Conhecida a falta, correm prazos e há prescrições. O costume.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

24/06/2012

da autoria deste blogue - inequivocamente

AL, baptizado

Foi-me enviado por mail um comentário ao mais recente artigo do Professor Santana  Castilho, no qual se refere maldosamente este blogue, e cito, "onde ninguém ousa dar a cara pelo que ali se escreve".
AL, 1976 (1º ano c/o prof)

Pois para que não restem dúvidas ao autor do comentário (post no blogue "O Azereiro" -- que proximamente comentarei.. se me apetecer..) ou a quem mais sofra de igual distracção, passo a terminar a transcrição das crónicas com a autoria da publicação (AL) e acrescentei aí na coluna da direita (onde já havia referências bastantes à minha pessoa!!) o nome e link para o meu outro blogue.

AL 2010, escola actual
Não sei se será preciso incluir tb o meu perfil, por via das dúvidas.. coisa(s) que não fiz antes por puro pudor .. 

É, como diz o meu amigo Luís Costa, há gente muito mal intencionada e a quem o Professor Santana Castilho faz uma 'mossa'.. irracional..


Pois..   deixo aqui a minha foto, já agora 
.. ou várias 
.. ou uma cronologia em imagens, melhor decidindo!

21/06/2012

Carta aberta ao ministro Nuno Crato

Carta aberta ao ministro Nuno Crato
in Público, 21/6/2012
Santana Castilho*

Senhor ministro:

Como sabe, uma carta aberta é um recurso retórico. Uso-o, agora que se cumpre um ano sobre a sua tomada de posse, para lhe manifestar indignação pelas opções erradas que vem tomando e fazem de si um simples predador do futuro da escola pública. Se se sentir injustiçado com a argumentação que se segue, tenha a coragem de marcar o contraditório, a que não me furto. Por uma vez, saia do conforto dos seus indefectíveis, porque é pena que nenhuma televisão o tenha confrontado, ainda, com alguém que lhe dissesse, na cara, o que a verdade reclama. 

Comecemos pelo programa de Governo a que pertence. Sob a epígrafe “Confiança, Responsabilidade, Abertura”, garantia-nos que “… nada se fará sem que se firme um pacto de confiança entre o Governo e os portugueses … “ e asseverava, logo de seguida, que desenvolveria connosco uma “relação adulta” (página 3). E que outra relação, senão adulta, seria admissível? O que se seguiu foi violento, mas esclarecedor. O homem que havia interrogado o país sobre a continuidade de um primeiro-ministro que mentia, referindo-se a Sócrates, rápido se revelou mais mentiroso que o antecessor. E o senhor foi igualmente célere em esquecer tudo o que tinha afirmado enquanto crítico do sistema. Não me refiro ao que escreveu e disse quando era membro da Comissão Permanente do Conselho Nacional da UDP. Falo daquilo que defendia no “Plano Inclinado”, pouco tempo antes de ser ministro. Ambos, Passos Coelho e o senhor, rapidamente me reconduziram a Torga, que parafraseio: não há entendimento possível entre nós; separa-nos um fosso da largura da verdade; ouvir-vos é ouvir papagaios insinceros.

Para o Governo a que o senhor pertence, a Educação é uma inevitabilidade, que não uma necessidade. Ao mesmo tempo que a OCDE nos arruma na cauda dos países com maiores desigualdades sociais, lembrando-nos que só o investimento precoce nas pessoas promove o desenvolvimento das sociedades, Passos Coelho encarregou-o, e o senhor aceitou, de recuperar o horizonte de Salazar e de a reduzir a uma lógica melhorada do aprender a ler, escrever e contar. Sob a visão estreita de ambos, estamos hoje, em relação a ela, com a mais baixa taxa de esforço do país em 38 anos de democracia. 

O conflito insanável entre Crato crítico e Crato ministro foi eloquentemente explicado no último domingo de Julho de 2011, no programa do seu amigo, professor Marcelo. Sujeito a perguntas indigentes, o senhor só falou, sem nada dizer, com uma excepção: estabeleceu bem a diferença entre estar no Governo e estar de fora. Quando se está no Governo, afirmou, “tem de se saber fazer as coisas”; quando se está de fora, esclareceu, apresentam-se “críticas e sugestões, independentemente da oportunidade”. Fiquei esclarecido e acedi ao seu pedido, implícito, para arquivarmos o crítico. Mas é tempo de recordar algumas coisas que tem sabido fazer e que relações adultas estabeleceu connosco. 

A sua pérola maior é o prolixo documento com que vai provocar a desorganização do próximo ano lectivo, marcado pela obsessão de despedir professores. Autocraticamente, o senhor aumentou o horário de trabalho dos professores, redefinindo o que se entende por tempos lectivos; reduziu brutalmente as horas disponíveis para gerir as escolas, efeito que será ampliado pela loucura dos giga-agrupamentos; cortou o tempo, que já era exíguo, para os professores exercerem as direcções das turmas; amputou um tempo ao desporto escolar; e determinou que os docentes passem a poder leccionar qualquer disciplina, de ciclos ou níveis diferentes, independentemente do grupo de recrutamento, desde que exista “certificação de idoneidade”, forma prosaica de dizer que vale tudo logo que os directores alinhem. Consegue dormir tranquilo, desalmado que se apresenta, perante um cenário de despedimento de milhares de professores? 

O despacho em apreço bolsa autonomia de cada artigo. Mas é uma autonomia cínica, como todas as suas políticas. Uma autonomia decretada, envenenada por normas, disposições, critérios e limites. Uma autonomia centralizadora, reguladora, castradora, afinal tão ao jeito do marxismo-leninismo em que o senhor debutou politicamente. Poupe-nos ao disfarce de transferir para o director (que não é a escola), competências blindadas por uma burocracia refinada, que dizia querer implodir e que chega ao supino da cretinice com a fórmula com que passará à imortalidade kafkiana: CT=K x CAP + EFI + T, em que K é um factor inerente às características da escola, CAP um indicador da capacidade de gestão de recursos humanos, EFI um indicador de eficácia educativa (pergunte-se ao diabo ou ao Tiririca o que isso é) e T um parâmetro resultante do número de turmas da escola ou agrupamento. Por menos, mentes sãs foram exiladas em manicómios. 

Senhor ministro, vai adiantada esta carta, mas a sua “reorganização curricular” não passará por entre as minhas linhas como tem passado de fininho pela bonomia da comunicação social. O rigor que apregoa mas não pratica, teria imposto o único processo sério que todos conhecem: primeiro ter-se-iam definido as metas de chegada para os diferentes ciclos do sistema de ensino; depois, ter-se-ia desenhado a matriz das disciplinas adequadas e os programas respectivos; e só no fim nos ocuparíamos das cargas horárias que os cumprissem. O senhor inverteu levianamente o processo e actuou como um sapateiro a quem obrigassem a decidir sobre currículo: fixou as horas lectivas e anunciou que ia pensar nas metas, sem tocar nos programas. Lamento a crueza mas o senhor, que sobranceiramente chamou ocultas às ciências da educação, perdeu a face e virou bruxo no momento de actuar: simplesmente achou. O que a propósito disse foi vago e inaceitavelmente simplista. O que são “disciplinas estruturantes” e por que são as que o senhor decretou e não outras? Quais são os “conhecimentos fundamentais”? O que são o “ensino moderno e exigente” ou a “redução do controlo central do sistema educativo”, senão versões novas do “eduquês”, agora em dialecto “cratês”? Mas o seu fito não escapa, naturalmente, aos que estão atentos: despedir e subtrair à Educação para adicionar à banca.

Duas palavras, senhor ministro, sobre o Estatuto do Aluno. É preciso topete para lhe acrescentar a Ética Escolar. Lembra-se da sua primeira medida, visando alunos? Eu recordo-lha: foi abolir o prémio para os melhores, instituído pelo Governo anterior. Quando o senhor revogou, já os factos que obrigavam ao cumprimento do prometido se tinham verificado. O senhor podia revogar para futuro. Mas não podia deixar de cumprir o que estava vencido. Que aconteceu à ética quando retirou, na véspera de serem recebidos, os prémios prometidos aos alunos? Que ética lhe permitiu que a solidariedade fosse imposta por decreto e assente na espoliação? Que imagem da justiça e do rigor terão retirado os alunos, os melhores e os seus colegas, do comportamento de que os primeiros foram vítimas? Terão ou não sobeja razão para não acreditarem nos que governam e para lamentarem a confiança que dispensaram aos professores que, durante 12 anos, lhes ensinaram que a primeira obrigação das pessoas sérias é honrar os compromissos assumidos? Não é isso o que os senhores hoje invocam quando reverenciam Sua Santidade a Troika? Da sua ética voltámos a dar nota quando obrigou jovens com necessidades educativas especiais a sujeitarem-se a exames nacionais, em circunstâncias que não respeitam o seu perfil de funcionalidade, com o cinismo cauteloso de os retirar depois do tratamento estatístico dos resultados. Ou quando, dias antes das inscrições nos exames do 12º ano, mudou as respectivas regras, ferindo de morte a confiança que qualquer estudante devia ter no Estado. Ou, ainda, quando, por mais acertada que fosse a mudança, ela ocorreu a mais de meio do ano-lectivo (condições de acesso ao ensino superior por parte de alunos do ensino recorrente). Compreenderá que sorria ironicamente quando acrescenta a Ética Escolar a um Estatuto do Aluno assente no castigo, forma populista de banir os sintomas sem a mínima preocupação de identificar as causas. Reconheço, todavia, a sua coerência neste campo: retirar os livros escolares a quem falta em excesso ou multar quem não quer ir à escola e não tem dinheiro para pagar a multa, fará tanto pela qualidade da Educação como dar mais meios às escolas que tiverem melhores resultados e retirá-los às que exibam dificuldades. Perdoar-me-á a franqueza, mas vejo-o como um relapso preguiçoso político, que não sabe o que é uma escola nem procurou aprender algo útil neste ano de funções.


* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

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comentários retirados daqui :

Ana Filipe Desconfio que daqui a mais um ano ou dois vou ter que procurar outra coisa para fazer...este governo e estas políticas estão a matar-nos!!! ELES QUEREM MATAR A ESCOLA PÚBLICA!!!!
 
José Carlos G Fernandes No seu melhor nível. Abraço
 
Mariana Piteira Já não exerço (sou aposentada) mas sinto muito pelos que estão a passar por estas vicissitudes. Bonitas palavras professor. Bem haja.
 
Adélia Rodrigues Excelente!
 
Graciete Teixeira Grande defesa da escola pública e dos professores. Obrigada.
 
Manuel Santos Parabéns pela lucidez, análise e registo histórico, Professor. O cratês, a seguir - e de forma mais insidiosa - ao lurdês, vai ser a ruína do sistema educativo nacional ao longo de várias décadas. Levantámos uma sociedade decente desde os anos 70, vêmo-la esboroar-se de dia para dia sob acção desta térmita. Todavia, ainda quero crer que a resistência cidadã pode conseguir minorar um pouco isto, embora não esteja a ver como neste cenário de choldra em que nos atolámos. Obrigado por estes momentos cívicos!
 
Sonia Antunes Antunes De facto não há palavras para descrever a sua genialidade e talento relativamente às suas opiniões, que são sempre esclarecedoras e dilaceram qualquer político! Obrigada!
 
Luís Sérgio Rolão Mendes Excelente, o gume das palavras verdadeiras, pena este país, e, especialmente, os professores andarem tão distraídos.
 
Teresa Ramos Distraídos não andam... por vezes não podem (ou não conseguem) fazer melhor.
 
Luís Sérgio Rolão Mendes Onde escrevi distraídos, queria escrever anestesiados.
 
José Pires de Lima Os ministros passam, mas os críticos ficam para bem da nação! Este ministro, antes voz crítica do sistema, jamais voltará a ter legitimidade para o fazer, pois perdeu toda a credibilidade! Quando fala, já não se ouve a voz nem do crítico nem do ministro, mas de alguém corrompido pelo próprio sistema, para mal da nação.
 
Paula Paulo Muito obrigado pela análise excelente da condição do ensino em Portugal.
 
Sérgio Bernardes Excelente. Obrigado.
 
Helder Silva Como sempre, forntal e incisivo. obrigado
 
Eduardo Coelho Que nunca as mãos lhe doam, caro professor... nem as teclas lhe fiquem presas! Obrigado!
 
Li de Queiroz Quem sabe, ensina...quem não sabe, manda! São os C(r)atos que temos!Força, Professor Santana Castilho. É de alguém como o senhor que a educação precisa.
 
Sofia Fernandes Eu não sou professora. Mas tenho amigas que o são e vejo-as a ensandecer à mercê destes Sr. Ministros da Educação. Eu acreditei no Nuno Crato. Pensei que iria fazer o correcto, ou pelo menos, que não fizesse o incorrecto! O Professor Castilho tem toda a razão no que escreve!! Isto é um puxão de orelhas ao Nuno Crato, muito bem merecido! Cada vez mais acredito que a política é uma casa pestilenta, onde quem respira, apodrece. E nós, cá andamos, com a cabeça entre as orelhas! Os professores e alunos do nosso país estão a ser desconsiderados. E que são eles senão a base da nossa sociedade? Assim, a esperança morre-nos! Obrigada pela sua activa defesa pela ESCOLA, pelos alunos e pelos professores. Um abraço com admiração!
 
Cátia Santos Não podia concordar mais! Bem haja, professor!
 
Cristina Martins Proença Mais uma vez uma lufada de ar puro... As suas palavras Professor.
Obrigado por ser quem É...
 
Ana Cristina Pimenta Sábias palavras.
 
Ana Madeira Apenas uma palavra: OBRIGADA.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

19/06/2012

dos exames e da qualidade do ensino

Hoje, no "Discurso Direto" da TVI24 (15h-16h), mais uma intervenção brilhante do Professor Santana Castilho. O tema em questão eram os exames nacionais e eventual relação com a qualidade do ensino, mas muitas outras feridas foram tocadas por este especialista em gestão educacional. Pena que, de novo, em horário obscuro. Pena que, outra vez, sem o contraditório que se impunha - uma discussão que valesse e durasse e fosse (muito) vista. Ficou o repto de um contraditório com os políticos responsáveis, associações de pais, professores.. Repto sempre lançado pelo Professor (e tanto que o vêm requisitando as televisões ultimamente) estranhamente (ou talvez não..) nunca atendido pelos visados. Razão de sobra para perguntar, "quem tem medo de Santana Castilho?"- Teve-o com toda a certeza Mª L. Rodrigues e os seus capatazes, que com ele nunca ousaram um 'frente-a-frente', têm-no inequivocamente, também, PPC e Nuno Crato e Cia.. 
Por parte da jornalista Paula Magalhães, que me surpreendeu muito agradavelmente, ficou, pelo menos, a declaração da sua disponibilidade, a promessa de um programa finalmente sério sobre esta urgente temática da Educação em Portugal -- assim ela possa. Assim, e cito-a, "todos aceitem estar presentes" .. coisa de que eu, infelizmente, mais que duvido.

Crato e o «cúmulo da cretinice administrativa»

Professor Santana Castilho deixa fortes críticas ao ministro da educação

editorial@mediacapital.pt

O professor universitário Santana Castilho acusou Nuno Crato de não ter capacidade para ser ministro da Educação. No programa Discurso Direto da TVI24, o professor defendeu ainda que a nova fórmula de lançamento do ano letivo é o «cúmulo da cretinice administrativa».

«Há agora uma fórmula de lançamento do ano letivo que é de facto o cúmulo, desculpe, eu meço o termo, é o cúmulo da cretinice administrativa. Uma fórmula complicadíssima, através da qual o ministro Nuno Crato pensa que vai endireitar as escolas», disse.

Questionado pela capacidade do ministro, Santana Castilho foi peremptório em afirmar que Nuno Crato não tem «capacidade». «É um populista, é alguém que desconhece de facto os problemas de uma escola», acusou. 

excerto do programa aqui:

06/06/2012

Insensato, ponto, Crato


Público, 6 de Junho de 2012
por Santana Castilho *

1. A Unicef divulgou o relatório “Medir a Pobreza Infantil”, considerando crianças até aos 16 anos e dados de 2009. Num universo de 29 países estudados, Portugal está na 25ª posição. Atrás de nós só Letónia, Hungria, Bulgária e Roménia. Quase um terço das crianças portuguesas está em carência económica (o critério é o não cumprimento de dois ou mais dos 14 requisitos considerados). Essa carência dispara para 46,5 por cento se o universo for o das famílias monoparentais ou 73,6 por cento se ambos os progenitores estiverem no desemprego. Há crianças (14,7 por cento) que vivem em famílias cujo rendimento não ultrapassa os 200 euros mensais. A desatenção que as autoridades portuguesas dão às nossas crianças está bem patente quando verificamos que a taxa das que sofrem privações é três vezes superior à dos países com idêntico rendimento per capita. Sendo certo que os efeitos da presente crise ainda não se manifestavam em 2009, imagine-se a brutalidade dos números se fossem reportados à actualidade. É insensato fingir que esta realidade não existe.
2. O teste intermédio de Matemática do 9º ano, da responsabilidade do Gabinete de Avaliação Educacional, teve resultados alarmantes. Houve turmas com uma só nota positiva. Nas escolas de topo dos habituais rankings verificaram-se quebras de 30 por cento. Foram vários os professores da disciplina que consideraram o teste com grandes lacunas de validade relativamente ao programa em vigor na maioria das escolas do país. Recorde-se que estão vigentes dois programas, sendo um deles aplicado apenas em escolas-piloto. Recorde-se, também, que isto sucede a um dos maiores investimentos feito nos últimos anos no que toca ao ensino da Matemática e à formação dos respectivos professores. O exame a sério está marcado para 21 deste mês. Ficarei surpreendido se não se traduzir numa catastrófica razia. Foi insensato falar da implosão daquela coisa.
3. Pertenço aos que mais criticaram o programa “Novas Oportunidades”: pelo oportunismo a que deu lugar; pelo dinheiro gasto sem critério; pela falta de rigor de muitos dos seus centros, que reduziram a exigência mínima ao ridículo máximo. Estou por isso à vontade para criticar, agora, a maneira como este Governo lhe pôs fim, escudando-se na avaliação produzida pelo Instituto Superior Técnico, que concluiu que o programa não produziu … aquilo para que não foi criado. Voltamos ao ensino recorrente, posto de lado por ter uma taxa de abandonos enorme e um custo por aluno inaceitável. É insensato continuarmos em ciclos de pára, arranca, determinados pelo “achismo” dos ministros, gastando e deitando fora.
4. O flagelo do desemprego tem os professores como representantes destacados: entre Abril de 2011 e Abril de 2012, mais que duplicou o seu número. O futuro próximo (alterações curriculares, aumento do número de alunos por turma e giga agrupamentos de escolas) ampliará o quadro. Apressadamente, chegam às instituições de formação instruções para reduzir em 20 por cento as vagas de acesso aos respectivos cursos. Portugal tem professores a mais? É insensato responder levianamente à pergunta.
5. As matrizes curriculares dos ensinos básico e secundário, recentemente conhecidas, já mudaram várias vezes no espaço de uma semana. São patentes a inconstância e a insensatez ministeriais. Há incoerência entre o que o ministro disse em Março e o que agora se vai conhecendo. A duração dos tempos lectivos, sujeita à opção das escolas, pode transformar-se numa dissimulada forma de reduzir cargas disciplinares. No caso da Educação Física, cujo tempo vigente já é insuficiente face às recomendações internacionais, verifica-se, por referência à segunda versão matricial, uma redução de 16 aulas anuais no ensino secundário. Em contraciclo com a recomendação da Assembleia da República, que reconheceu a necessidade de reforçar a actividade física dos jovens, e ao arrepio de termos a segunda maior taxa de obesidade da Europa. É insensato poupar no farelo para gastar na farinha.
6. Sete ministros e nove secretários de Estado imitaram Sócrates no seu melhor. Foram a outras tantas escolas, não entregar diplomas do “Novas Oportunidades” ou distribuir “Magalhães”, mas “promover o voluntariado” e “incentivar as novas gerações”, no mesmo dia em que as mentiras de Relvas eram debatidas no parlamento. As televisões tiveram que escolher entre esta farsa e aquelas palhaçadas. O relógio de sol, de Nuno Crato, e a aula de canto, de Passos Coelho, ganharam. Perdeu a dignidade do Governo. Foi insensato fazer das escolas palco de uma saloia alienação.
7. Crato faz a 21 deste mês um ano de “casa”. De uma casa para cuja mesa nunca convidou os professores. Nem os pais. Nem os cidadãos. Para comemorar a efeméride, proponho que lhe mudemos o e-mail para insensato, ponto, Crato.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

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comentários daqui :

Teresa Moreira Bravo Professor,como sempre,uma análise da atual situação muito bem observada. Bem haja pela postura reta que mantem e muito obrigado por estar atento e denunciar todas estas " artimanhas" utilizadas por estes " senhores" !!!
 
Mário Jorge Subscrevo tudo o que a Teresa Monteiro diz.Se no nosso país, houvesse mais pessoas atentas, como o PROFESSOR, as instituições e as políticas dos governantes seriam diferentes. Obrigado
 
Rui Andrade Inteligente, culto e sério. Obrigado Professor.

29/05/2012

Arcos de Valdevez, "o rosto e as máscaras"

Conferência por SANTANA CASTILHO
25 de Maio, sessão de abertura

"Políticas para a educação: passado, presente e futuro"

Professor Santana Castilho com o Director do  CENFIPE, José Carlos Fernandes

CENFIPE (Centro de Formação e Inovação dos Profissionais de Educação)
| Escolas do Alto Lima e Paredes de Coura.

Santana Castilho e Boaventura S. Santos, 26/5/2012

25/05/2012

Santana Castilho em Arcos de Valdevez (25 de Maio)



-- hoje, pelas 22.00, na Sessão Solene de Abertura do CICLO DE CONFERÊNCIAS "O Rosto e as Máscaras : Inovar em Tempos de Desânimo", na CASA das ARTES de Arcos de Valdevez


21.30 h.
"Educar Com o Sim e com o Não : Escola, Parentalidade e Valores"
Sessão de Abertura

Conferência por SANTANA CASTILHO
"Políticas para a educação: passado, presente e futuro"



É em contra corrente, contra a desmotivação e a ideia da degradação da escola e das pessoas que nela habitam que o CENFIPE – Centro de Formação e Inovação dos Profissionais de educação /Escolas do Alto Lima e Paredes de Coura - convoca os Diretores de Escolas, Professores, Pais e Encarregados de educação, Autarcas, Académicos, investigadores, empreendedores e todos aqueles que tem responsabilidades na educação para um grande debate público, um Ciclo de Conferências ao qual deu o nome “ESCOLA PÚBLICA | O Rosto e as Máscaras: Inovar em tempos de Desânimo”.
Acontece no Norte, no Coração do Alto Minho, descentralizado por quatro Concelhos, Arcos de Valdevez (25 e 26 de Maio de 2012), Ponte de Lima (23 de Junho de 2012), Paredes de Coura (20 de Outubro de 2012 e Ponte da Barca (24 de Novembro de 2012).
Reúne-se, num momento único, um leque de especialistas/individualidades que, são hoje, referência em áreas distintas: sociologia, educação, inovação, tecnologia, empreendedorismo, investigação e decisão política. Pessoas que nos contagiam e inspiram…

Santana Castilho (ESE Santarém), Milice Ribeiro dos Santos (Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar), Jonhson Semedo (Associação Moinho da Juventude/Cova da Moura) Júlio Magalhães (Diretor do Porto Canal), António Câmara (CEO da Y Dreams), Boaventura de Sousa Santos (Diretor do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra), Licínio Lima (U. Minho), Almerindo Afonso (U. Minho), António Nóvoa(Reitor da Universidade de Lisboa), Joaquim Azevedo(Universidade Católica Portuguesa), Alexandre Castro Caldas(Diretor do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade, Miguel Santos Guerra (Universidade de Málaga), Rui Nabeiro (Delta Cafés), Fortunato Frederico (Kyaia), Joaquim Borges Gouveia ()Universidade de Aveiro), Bautista Vallejo (Universidade de Huelva), Paulo Morais (Associação Anima com riso) o Alto Comissário do Plano Nacional de Leitura, Fernando Pinto do Amaral e o criativo Miguel Gonçalves (Spark Agency) são alguns dos nomes confirmados. Confirmada ainda na Sessão Solene de Abertura a Srª Secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário, Isabel Leite e o Sr. Diretor Geral da Administração Escolar, Mário Agostinho Pereira.
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O DIRETOR DO CENFIPE
José Carlos Fernandes

ver programa aqui
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23/05/2012

A dislexia das crianças e a dislexia dos que mandam


no Público de 23/5/3012,

por Santana Castilho *

1. O júri nacional de exames (JNE) recusou que a uma aluna de 14 anos fosse lido o enunciado do exame a que se submetia, obrigatoriamente. A aluna é disléxica. A leitura era prática seguida há anos. Aparentemente, a questão resume-se a saber se a um aluno disléxico devem ou não ser lidos os enunciados dos exames. O JNE diz que não. Os especialistas dizem que sim, pelo menos em casos determinados, dependendo da dificuldade do aluno. No caso em apreço, a escola da aluna recomendou a leitura. A terapeuta que a assiste também, aliás secundada pela respectiva direcção regional. Alega o JNE que os alunos disléxicos têm uma tolerância de 30 minutos relativamente ao tempo de duração das provas e são classificados segundo regras concebidas para que as suas limitações não se reflictam no resultado final. O JNE invoca uma generalização de abusos quanto a condições especiais, que se tornaram regra para alunos disléxicos. Da literatura disponível sobre a matéria inferem-se factos, a saber: a dislexia é uma limitação do foro neurológico, com diferentes graus de gravidade; uma dislexia moderada pode dispensar a leitura do enunciado dos exames, mas uma dislexia severa não; assim, alguns disléxicos podem cognitivamente dominar um saber e prová-lo se interrogados oralmente, embora não consigam entender ou sequer ler a pergunta, se esta for formulada por escrito. Num exame de Matemática, por exemplo, mede-se um conhecimento específico que um aluno pode deter em grau máximo, apesar da sua dislexia severa. Mas não o conseguirá provar se as questões estiverem escritas. Num exame de Português, o mesmo aluno pode ter uma fina capacidade de interpretar um texto complexo que lhe seja lido. Mas não entenderá coisa alguma se for obrigado a lê-lo. Pode o Estado certificar proficiência em leitura a um aluno com uma dislexia severa? Não. Mas não pode deixar que a limitação do aluno se reflicta noutras áreas do conhecimento, somando à respeitável penalização da natureza humana com que aquele aluno nasceu, outra penalização, desta feita nada respeitável. Porque entre o tempo em que se fechavam em galinheiros crianças deficientes e hoje houve um percurso, embora a tónica esteja agora posta em retrocessos a que chamam progressos. Não é redundante, por isso, recordar a alguns disléxicos que mandam que estão para breve mais exames a que se submeterão mais alunos disléxicos, com níveis de conhecimento que nunca poderão demonstrar se os econometristas da moda persistirem em confundir velocidade com toucinho, uma recorrente dislexia política dos tempos que correm.
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2. Passos Coelho e Miguel Relvas, que se saiba, não são disléxicos, por via neurológica. Mas dão sinais preocupantes de dislexia política. As afirmações do primeiro sobre a ventura feliz que o desemprego constitui, demonstraram uma profunda incapacidade de leitura do drama social dos portugueses desempregados. E a censura cínica que lhes dirigiu por preferirem ser assalariados a “empreendedores” (ele que, no curto tempo em que desempenhou alguma actividade produtiva se acolheu prudentemente ao Estado e a Ângelo Correia) mostra que não sabe, também, ler dados estatísticos. É que, se por um lado Portugal é o quarto país da OCDE que mais empresários tem, por outro, três quartos das empresas criadas ficam insolventes nos primeiros anos de actividade. Se esta dislexia for recuperável, perceberá um dia, tarde, que as causas do desastre, a que ele chama sorte, são outras. Começando por ele e pelo seu pensamento fundamentalista, socialmente darwinista.
Quanto ao homem do avental, ele que ousa dissertar sobre “jornalismo interpretativo”, acometido que parece de dislexia político/comunicacional (que generoso estou, não falando de pulsões chantagistas), avanço propostas terapêuticas para a interpretação do “texto”, que qualquer assessor lhe pode ler:
- Diga, em adenda à carta que dirigiu à Entidade Reguladora para a Comunicação Social, se sim ou não ameaçou a jornalista Maria José Oliveira com a publicação de dados sobre a sua (dela) vida privada.
- Diga, do mesmo passo, como saneia uma aparente contradição, quando depois de garantir que conheceu o ex-espião Jorge Silva Carvalho depois de Março de 2010, referiu na Assembleia da República ter dele recebido um “clipping” reportando uma visita de Bush ocorrida … em 2007. Esclareça se era habitual Silva Carvalho fazer “remakes” do “Canal História”, via SMS.
Claro está que isto é retórica de escriba. De escriba que expôs ao ministro Relvas, acabado de empossar, uma estranha “dislexia”, que continua por tratar ou explicar. Ainda os casos Nuno Simas e Pedro Rosa Mendes vinham longe.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)


comentário daqui :

Graciete Teixeira Muito me apraz ver que há alguém acordado no meio da lavra.
A arborescência de medidas políticas, mal alinhavadas, feitas por quem não sabe costurar sem dedal, está a fazer um rasgo irremediável na educação. Despe-a de princípios de igualdade e justiça, transformando-a num cano estreito para ratos espertos, regredindo ao trivium da idade média. Esta revisão curricular, esta questão da dislexia, disparates luciferinos e um país que vai nu em praça pública, como se albergasse o melhor traje. Enojo-me deste fumo branco, que traz o povo português passivo, para não dizer pedrado, conformado e enformado como um par de sapatos.

09/05/2012

O Pingo Doce e o pingo amargo

Público, 8 de Maio de 2012

por Santana Castilho *
O Pingo Doce e o pingo amargo

1. Obviamente que não sei quanto facturou o Pingo Doce a 1 de Maio. Mas vi referências que situam o encaixe financeiro, em poucas horas, entre os 70 e os 90 milhões de euros. Imaginemos que o grupo recorria a emissão obrigacionista a três anos, para se financiar por igual quantia. Se tomarmos por referência as recentes iniciativas da Semapa e da EDP, a operação teria um custo nunca inferior a 17 milhões de euros. Não tenho elementos que me permitam calcular o valor da mercadoria que saiu das prateleiras, com prazos de validade próximos da caducidade. Mas, certamente, não será despiciendo. Não fora a campanha, essa mercadoria, que agora vai caducar em casa dos clientes, constituiria para o grupo uma perda total. Melhor foi, portanto, “passá-la” a 50 por cento. Volto a não saber quanto gasta o Pingo Doce em publicidade. Mas sabemos todos que é muito. Pois bem: quanto custariam a cascata de notícias, em horário nobre, de todas as televisões, as referências das rádios e o espaço dos jornais, servidos ao grupo a custo zero? Não sei, uma vez mais, quantificar o valor da vantagem comercial obtida com esta manobra predadora. Mas há perguntas que me ocorrem. Que impacto terá isto sobre o pequeno e agonizante comércio de bairro, face ao que o povo acumulou para meses? Quantos milhões perdeu Belmiro de Azevedo a favor do benfeitor Soares dos Santos? Quantos milhões vão perder os produtores, quando os preços forem esmagados pelo volume da operação de reposição de “stocks”?

2. Fora o altruísmo o motor que fez mover Soares dos Santos e a sua inteligência teria encontrado alternativas que nos poupassem ao pingo amargo que o Pingo Doce pôs a nu: a incivilidade de muitos. Ao ver bacalhaus pelo ar, polícia a dirimir tumultos e hospitais a receber vítimas de confrontos entre consumidores, voou-me o espírito para o 11 de Março. Não o nosso. O do Japão de 2011: sismo, “tsunami” e desastre nuclear; 200 mil refugiados, 13 mil mortos e 15 mil desaparecidos; 45 mil edifícios destruídos, 140 mil danificados e 200 mil milhões de euros de prejuízos. E? Quando a catástrofe chegou, cada cidadão sabia o que fazer. E fez. Cinquenta funcionários de Fukushima, sacrificando a vida em benefício do colectivo, permaneceram voluntariamente na central nuclear, para que a água do mar fosse bombeada para os reactores e a catástrofe não crescesse. Nas filas intermináveis para acesso a água e mantimentos, não se viu um atropelo ou a mínima algazarra. Só silêncio, consternação, paciência e dignidade. Não houve saques em lojas. Outrossim, cada japonês comprou o estritamente necessário para que os bens chegassem para todos. Os restaurantes baixaram os preços, respondendo de modo inverso à lei da oferta e da procura. Quando num supermercado a electricidade faltou, os clientes devolveram às prateleiras o que tinham em mãos e saíram ordeiramente. 

3. Entre nós e eles a diferença chama-se educação na família e instrução na escola. A sustentabilidade (como agora é moda dizer) do estado social é motivo actual para pôr em causa a escola pública. No início da sua actividade, como líder do PSD, Passos Coelho trouxe esta questão à discussão política, de modo mais explícito inicialmente, por forma corrigida e mais cautelar logo a seguir. Como é habitual, evocou a demografia: o Estado social não suporta a gratuidade desses serviços, disse, numa pirâmide etária com tendência para se inverter (menos jovens na base, mais velhos no vértice). Quem assim pensa, espere pelos resultados do que Passos e Crato estão a fazer à escola pública. Incensam a autonomia, mas reforçam o centralismo. Seraficamente, erigem ensino de primeira para poucos, financiado por todos, e ensino de terceira para a plebe, cada vez mais baratinho. Convenientemente, acolhem o caciquismo autárquico. Criminosamente, criam “unidades orgânicas” com 9 mil alunos, um só conselho pedagógico sem pedagogia possível, um director inchado que não vai dirigir, asfixiando, a decreto, a conjugação de esforços que só a proximidade permite.

A necessidade de evitar a bancarrota determinou entre nós uma espécie de estado de inevitabilidade e de necessidade nacional que impede, pela urgência que nos impuseram e pelo acenar insistente da tragédia grega, que discutamos outras vertentes possíveis de análise. Por que razão o peso dos problemas financeiros é menor em países com maior capacidade redistributiva da riqueza produzida? Por que razão assistimos, impávidos, à sistemática diminuição do investimento em educação, coexistente com a intocabilidade das rendas pagas pelo Estado a grupos económicos, gananciosos e apressados, com quem contratou parcerias ruinosas? Por que razão uma economia incivilizada passa pela crise sem que a possamos pôr em causa? 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

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comentário retirado daqui :

Mário Jorge Professor, mais uma vez temos todos que lhe agradecer pela análise dos temas expostos, feita com tanta clareza e tão elucidativa que não deixará ninguém indiferente. Indiferentes e acomodadas parecem estar as instituições e associações que existem para mostrar a sua indignação e repulsa pelas medidas que, paulatinamente, nos fazem aceitar, em nome de uma necessidade que está por explicar. A pretexto de se ultrapassar a crise, criam-se outras crises: a da educação, a da justiça, a da saúde e muitas outras, e, concordo consigo, nada acontece, ninguém reage, todos se acomodam. É pena que o país continue adormecido…
Por isso, continuamos a contar com as suas crónicas, para ajudar a despertar os portugueses para uma realidade que muitos querem esconder. Obrigado.