18/07/2012

Uma classe zombie e um ministro bárbaro

Santana Castilho, de novo e sempre, sofrendo as dores que são nossas, descobrindo-nos as feridas assim, sem paninhos quentes, o pus à vista, urgindo tratamento .. Nada. Os professores "comem e calam", sempre o fizeram, vergando-se (ainda que contrariados) aos devaneios tresloucados dos vários ministros que vão passando pela Educação, PSs ou PSDs. Apanham e parece que pedem mais. Queixam-se muito - na sala de professores. Manifestam-se na rua e depois voltam às suas escolas, cumprindo tudo, o rabinho metido entre as pernas. A maioria das vezes, só percebem a tempestade depois que o raio os atinge. Não embarcam em lutas "perigosas" tipo greves que (lhes) doam, não ousam, não têm ideias, não se informam, queixam-se só - e baixinho. Não Santana Castilho, que arrisca "gritar" bem alto. Que acusa, coberto de razão. Que se/nos informa. Que pensa por quem tinha, mais que ninguém, obrigação de pensar. Que aponta caminhos a quem teima em os não querer ver (greves de zelo, por exemplo? às matrículas, à formação de turmas.. ? ). Pois .. o tanto que se podia (devia!) fazer, e a mossa que isso ia causar, assim a classe o ouvisse !!!
AL


in Público, 18/7/2012
por Santana Castilho*
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Uma classe zombie e um ministro bárbaro

Numa sexta-feira, 13, a tampa de um enorme esgoto foi aberta ante a complacência de uma classe que parece morta em vida. Nuno Crato exigiu e ameaçou: até 13 de Julho, os directores dos agrupamentos e das escolas que restam tiveram que indicar o número de professores que não irão ter horário no próximo ano-lectivo. Se não indicassem um só docente que pudesse vir a ficar sem serviço, sofreriam sanções. Esta ordem foi ilegítima. Porque as matrículas e a constituição de turmas que delas derivam não estavam concluídas a 13 de Julho. Porque os créditos de horas a atribuir às escolas, em função da deriva burocrática e delirante de Nuno Crato, não eram ainda conhecidos e a responsabilidade não é de mais ninguém senão dele próprio e dos seus ajudantes incompetentes. Não se conhecendo o número de turmas, não se conhecendo os cursos escolhidos pelos alunos e portanto as correspondentes disciplinas, não se conhecendo os referidos créditos, como se poderia calcular o número de professores? Mas, apesar de ilegítima, a ordem foi cumprida por directores dúcteis. Como fizeram? Indicaram, por larguíssimo excesso, horários zero. Milhares de professores dos “quadros” foram obrigados, assim, a concorrer a outras escolas por uma inexistência de serviço na sua, que se vai revelar falsa a breve trecho. Serão “repescados” mais tarde, mas ficarão até lá sujeitos a uma incerteza e a uma ansiedade evitáveis. Por que foi isto feito? Que sentido tem esta humilhação? Incapacidade grosseira de planeamento? Incompetência? Irresponsabilidade? Perfídia? Que férias vão ter estes professores, depois de um ano-lectivo esgotante? Em que condições anímicas se apresentarão para iniciar o próximo, bem pior? Que motivação os animará, depois de tamanha indignidade de tratamento, depois de terem a prova provada de que Nuno Crato não os olha como Professores mas, tão-só, como reles proletários descartáveis? É de bárbaro sujeitar famílias inteiras a esta provação dispensável. É de bárbaro a insensibilidade demonstrada. Depois do roubo dos subsídios, do aumento do horário de trabalho, da redução bruta dos tempos para gerir agrupamentos e turmas, da tábua rasa sobre os grupos de recrutamento com essa caricatura de rigor baptizada de “certificação de idoneidade”, da menorização ignara da Educação Física e do desporto escolar, da supina cretinice administrativa da fórmula com que o ministro quer medir tudo e todos, da antecipação ridícula de exames para o início do terceiro período e do folclórico prolongamento do ano-lectivo por mais um mês, esta pulseira electrónica posta na dignidade profissional dos professores foi demais.
Todas as medidas de intervenção no sistema de ensino impostas por Nuno Crato têm um objectivo dominante: reduzir professores e consequentes custos de funcionamento. O aumento do número de alunos por turma fará crescer o insucesso escolar e a indisciplina na sala de aula. Mas despede professores. A revisão curricular, sem nexo, sem visão sistémica, capciosa no seu enunciado, que acabou com algumas disciplinas e diminuiu consideravelmente as horas de outras, particularmente no secundário, não melhorará resultados, nem mesmo nas áreas reforçadas em carga horária. Mas despede professores. Uma distribuição de serviço feita agora ao minuto, quando antes era feita por “tempos-lectivos”, vai adulterar fortemente a continuidade da leccionação das mesmas turmas, em anos consecutivos, pelos mesmos professores (turmas de continuidade), com previsível diminuição dos resultados dos alunos. Mas despede professores. As modificações impostas à chamada “oferta formativa qualificante”, mandando às urtigas a propalada autonomia das escolas, substituídas nas decisões pelas “extintas” direcções-regionais (cuja continuidade já está garantida, com mudança de nome) não melhora o serviço dispensado aos alunos. Mas despede professores.
Ao que acima se enunciou, a classe tem assistido em letargia zombie. Não são pequenas ousadias kitsch ou jograis conjuntos de federações sindicais, federações de associações de pais e associações de directores, carpindo angústias e esmagamentos, que demovem a barbárie. Só a paramos com iniciativas que doam. Os professores têm a legitimidade profissional de defender os interesses da classe. Digo da classe, que não de cada um dos grupos dentro da classe. E têm a responsabilidade cívica de defender a Escola Pública, constitucionalmente protegida. Crato vai estatelar-se e perder-se no labirinto que criou para o ano-lectivo próximo. Perdidos tantos outros, é o tempo propício para um novo discurso político, orientador e agregador da classe. A quem fala manso e age duro, urge responder com maior dureza. Lamento ter que o dizer, mas há limites para tudo. Como? Assim a classe me ouvisse. Crato vergava num par de semanas. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

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comentários (retirados daqui ) :

João Daniel Pereira Nós estamos a ouvi-lo, professor. O medo vai dar lugar à resistência, acredite. Também estou na situação de "horário-zero", com 19 anos de serviço (18 na mesma escola). Obrigado pelo texto (que resume tudo o que se está a passar) e por assumir, de forma tão corajosa, a defesa da Escola Pública.
 
João Freitas Tem toda a razão professor. Parece mentira como foi possível juntar centenas de milhares de professores em manifestações contra a Ministra Maria de Lurdes, quando agora estamos parados, quase inertes...
Era este o ministro esperado? Era!
Eram estas as decisões esperadas? NÃO!
Então? Então? O que é preciso é união para travar a destruição do ensino, mas andamos todos a olhar para o umbigo!!!
 
Ana Oliveira ja qt aos contratados, nem sequer existem. é tudo "jovens", "recém-licenciados" e "com experiência" e nao ha problema.
 
Manuel Santos O povo anda muito manso, é verdade. Não são só os professores. Vergaram-nos a todos com a intervenção colonial e a contestação está a cargo de um ou outro quixote perdido e isolado... Até quando?
 
Felícia Martins Mortos não estamos ...aguardamos pelo "acordar do coma" de quem nos abandonou!
 
Manuel Santos Ninguém nos abandonou, a não ser nós mesmos...
 
Luís Sérgio Rolão Mendes Obrigado professor, é preciso romper com o medo e o oportunismo que ainda impera. Já vai sendo tempo de acordar e correr com este ministro ao serviço da troika, disposto a tudo para destruir os professores e a escola pública.
 
Maria Isabel Carvalho Parabéns pela crónica, Professor. Tem toda a razão...mas acredito que se começa a acordar (até pode ser devagarinho, mas começa...). Mas na Educação os professores são apenas um dos grupo de atores em "palco" e esse factor "pesa" a favor de Nuno Crato. Mas com os frutos desta politica educativa tão desastrosa, não será por muito tempo. Continuação de boas crónicas, Professor. Obrigada.
 
Paula Charrano Brilhante como sempre!
 
Olivia Dias Excelente como sempre. Deviamos ter um Ministro da Educação com as suas qualidades...
 
Olivia Dias A classe admira-o mais do que imagina. O Professor esta sempre a ser citado nas salas de professores. Estamos atentos ao que escreve...
 
Rui Soares Obrigado, professor.
 
Mário Jorge Mais uma vez, obrigado Sr. Professor pela denúncia de um problema que foi criado pelo MEC e que se nada for feito pelos docentes quer estejam em DACL ou não, o ensino público corre sérios riscos de se degradar ainda mais. Estou convencido que todos os professores atentos aos problemas da educação não deixarão de refletir naquilo que o Sr. Professor diz. EXCELENTE SERVIÇO CÍVICO.
 
Adélia Simões O Professor tem toda a razão mas vivemos numa sociedade de medos e ninguém toma iniciativa para se manifestar!
 
Paula Paulo Agradeço imenso a sua crónica Professor. Como de costume coloca o dedo na ferida. Nós não estamos em coma mas o que podemos fazer??? Sinceramente estou um bocado farta de ouvir toda a gente a protestar e de ler textos magníficos como o seu. Mas tudo resvala na indiferença do MEC que continua a fazer o que bem lhe apetece. Os representantes dos sindicatos preocupam-se com as suas "vidinhas" e pouco mais! Então, diga-nos o que fazer?????? Desde 1976, ano em que comecei a leccionar, só aparecem teorias! Quando passamos aos actos????? E que actos????? Não estou em coma. Quero fazer alguma coisa!
 
Graciete Teixeira O problema é só um: pensamos sempre no salve-se quem puder, olhamos apenas o próprio umbigo, onde vemos a lamparina mágica e enfiamos a cabeça, curvados sobre nós próprios. A maioria dos professores do quadro (que conheço) sorri face às declarações de Nuno Crato, esperando a lura adequada para se enfiar, os contratados aguardam o tempo da caça. Todos são culpados pelo extermínio da escola pública enquanto espaço de liberdade e de democraticidade, pelo desaparecimento da disciplina de Educação Tecnológica da matriz curricular do 3º ciclo, pelo despedimento e, acima de tudo, pela vergonha de pactuarem com o Nuno Crato. Isto tudo envergonha-me e dá-me vontade de começar à estalada e acho que devia começar e acabar pela casa, pois aí reside o mal de tudo.
 
Isabel Campeão Tem toda a razão, Professor. Estou aposentada, mas tenho a legitimidade de muitas lutas pela Escola Pública para sublinhar e comentar: "Os professores têm a legitimidade profissional de defender os interesses da classe." E foram capazes de descer a Lisboa mais de 100 mil. "E têm a responsabilidade cívica de defender a Escola Pública". Mas, infelizmente, sobre essa responsabilidade é necessário e bem importante que sejam chamados a acordar. Agora, é o risco de despedimento, ou de instabilidade para quem atingira uma situação julgada estável, e isso lamento e estou solidária pois é dramático para cada um em termos pessoais e familiares. Mas as razões que foram permitindo chegar a isso são gravíssimas para o futuro da nossa Escola Pública e da Educação, por isso gravíssimas para o país em que vão viver os nossos filhos e/ou netos. Tenho-me lembrado muito daquele poema atribuído a Brecht... 'Não era nada comigo...... Agora levam-me a mim, mas já é tarde'. Bem haja pelo que escreveu, pois o Professor é muitíssimo lido pelos docentes.
 
 
Duro Paul Muitos parabéns caro Santana. Um cidadão por excelência! Continue!
 
Luís Pedro Ribeiro Concordo e subscrevo. Obrigado, professor!
 
Manuel Vitorino Queiroz On the grass: os julgamentos in absentia são mais aborrecidos do que as execuções in effigie

Com as palavras emprestadas e adaptadas de Almada Negreiros:

BASTA PUM BASTA!
UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM crato É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!

ABAIXO A GERAÇÃO!
 
O Cão Danado Professor Santana Castilho é com profundo pesar que eu, como professor contratado, vejo o atual isomorfismo da classe docente e, em grande parte, dos meus colegas professores contratados que, ao longo dos anos, têm vindo a sofrer cortes na sua dignidade profissional e no seu direito pleno ao trabalho. Não quero com isto dizer que a classe docente não tenha sofrido na sua plenitude, mas é com enorme angústia que vejo colegas contratados “comerem o pão que o diabo amassou”, muitas vezes com a complacência de outros professores nas escolas.
É com enorme tristeza que constato que muitas vezes é nas escolas que está o “inimigo”. Este inimigo é a total falta de solidariedade demonstrada por alguns. Os professores resistentes na escola atual são “achincalhados” por diretores zelosos e por professores “preguiçosos” que insistem em não honrar a profissão.
Neste momento em que escrevo, bravos professores lutam à frente do MEC com a esperança de conseguirem salvar a Escola Pública da tirania que foi imposta pelos sucessivos governos e, com especial ênfase, o atual.
Chegámos a este ponto em que o governo, em prol da bandeira masoquista da Troika, destrói por completo a educação em Portugal impondo uma série de medidas que visam a destruição de um sistema escolar público de qualidade.
Devo dizer que a esta altura já nada mais me surpreende pois, com o passar dos anos, assiste-se ao total desrespeito pelas leis e à destruição da figura do professor, o que resulta na devastação do seu orgulho profissional e numa incapacidade de lecionar com a qualidade desejada.

Obrigado Professor.
 
Rosa Carvalho Contundente e certeiro, aliás como sempre! Adorei o artigo, que já tinha lido em devido tempo! 
 
Joao Soares Zangado, Ramiro defende um economista que foi conselheiro do governo chileno de Augusto Pinochet e muitas de suas ideias foram aplicadas na primeira fase do governo Nixon e em boa parte do governo Reagan. Foram também muito apreciadas por Tatcher. Está tudo dito. Ou seja desfazem a escola pública, imperam as medidas economicistas, os professores andam em bolandas e depois pagam o triplo: mal pagos, turmas enormes e depois somos culpados da qualidade de ensino. Depois contratam professores da era global: migrantes da Índia, de outros países. Como já acontece com os médicos...É o falhanço do país (?)
 
Joao Soares Olhão Livre- muitos dos professores estão pobres, casos angustiantes que me chegam por email. Somos um casal de professores. Então a dose é a "dobrar"...A domesticação social começou com MLR e Sócrates. Vítor Gaspar e Paulo Portas agradecem.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

04/07/2012

A paranóia normativa e a permissividade escandalosa

Público, 4 de Julho de 2012
A paranóia normativa e a permissividade escandalosa
Santana Castilho *

1. Voltámos ao tempo das torrentes de legislação selvagem na Educação. Vale tudo para impor o reformismo louco de Nuno Crato. Menorizar as actividades físicas e desportivas da juventude em idade escolar é intelectualmente retrógrado, factualmente estúpido e pedagogicamente criminoso. Pôr os alunos do 1º ciclo a fazer exames no início do 3º período é demência pedagógica. Que vida terão no 3º período os professores e os alunos que já fizeram exame e já “passaram”? Prolongar por mais um mês o ano-lectivo para os alunos que vão “chumbar”, depois de durante o ano se terem retirado recursos para resolver problemas específicos de aprendizagem, é masoquismo pedagógico. Quem assim decide saberá em que condições chegam ao fim do ano professores e alunos? Pensar em novos “cursos de ensino vocacional” para crianças de nove ou dez anos de idade é darwinismo pedagógico, que anseia pela próxima etapa: ferrá-las no berço. Ordenar aos directores que indiquem a componente lectiva dos seus docentes, de dois a seis de Julho, quando tudo o que é necessário para a calcular não é ainda conhecido, é aldrabice pedagógica. 

A última pérola da paranóia normativa do ministro, as metas curriculares para o ensino básico, foi apresentada em conferência de imprensa. Nuno Crato, definitivamente convertido ao “eduquês”, disse que se destinam “a definir com clareza o que se quer que cada aluno aprenda” e que são “objectivos cognitivos muito claros para professores e alunos”. Oh, se são! Tão claros (especialmente para alunos) como se depreende dos nacos que transcrevo, a título de exemplo (os três primeiros de Português e os dois últimos de Educação Visual):

 - “Ler pelo menos 45 de 60 pseudo-palavras (sequências de letras que não têm significado mas que poderiam ser palavras em português) monossilábicas, dissilábicas e trissilábicas (em 4 sessões de 15 pseudo-palavras cada). “
- “ Ler corretamente, por minuto, no mínimo 40 palavras de uma lista de palavras de um texto apresentadas quase aleatoriamente”.
- “ Reunir numa sílaba os primeiros fonemas de duas palavras ( por exemplo, “cachorro irritado” --> “Ki”), cometendo poucos erros”.
- “Distinguir características dos vários materiais riscadores…”
- “Reconhecer e articular elementos da Teoria da Gestalt no âmbito da comunicação (continuidade, segregação, semelhança, unidade, proximidade, pregnância e fechamento).” 

Gosto particularmente, em matéria de clareza, do “quase aleatoriamente” (julgava eu que ou era aleatoriamente ou sequencialmente e fim de papo) e do “cometendo poucos erros” (dez serão poucos?). Em matéria de erudição desvanecem-me, dado que nos ocupamos do ensino básico, aquela cena do “cachorro irritado”, os “materiais riscadores”, a “pregnância” e o “fechamento”. Se quiserem muito mais, sirvam-se. Só para o Português e Matemática são para aí 180 objectivos e só 700 descritores. Fora o resto. É óbvio que meninos e professores agora é que se vão concentrar em tão poucas metas, os primeiros aprendendo como nunca e os segundos ensinando como jamais.

2. A história é rápida de contar mas já demorou demasiado a resolver. A 16 de Julho de 2011, verificou-se a eleição do actual director do Agrupamento de Escolas de Dr. João Araújo Correia, de Peso da Régua. O acto viria a ser impugnado junto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Mirandela, por outro candidato, que alegou ter o eleito prestado falsas declarações, designadamente dizendo possuir uma licenciatura que nunca possuiu. Do mesmo passo, a Inspecção-Geral da Educação e Ciência abriu um inquérito. Passou quase um ano e não há decisão sobre uma coisa que não precisaria de qualquer inquérito. Com efeito, é exigível que os serviços administrativos certifiquem, na hora, se um professor é licenciado ou não, sendo certo que há anos lhe paga como tal e até o nomeou Professor Titular, quando a categoria existia e exigia o grau de licenciado. A universidade onde o director estudou certificou que ele não tinha concluído a licenciatura. Essa certidão é do conhecimento dos intervenientes. Entretanto, houve decisão judicial, que anulou o acto de admissão a concurso do actual director, considerou que ele prestou falsas declarações no que toca à licenciatura e mandou repetir o processo, com a sua exclusão. Desta decisão podia recorrer o director, que recorreu, e a Direção-regional de Educação do Norte que, ao não recorrer, aceitou a decisão do tribunal. Exige-se, agora, rápida prova de vida do secretário de Estado do Ensino e Administração Educativa, que também está ao corrente desta saga, ou do director-regional de educação do Norte ou da inspectora-geral da Educação e Ciência. Ou deles todos, de mãozinhas dadas, por causa dos papões autárquicos. É que o processo judicial é uma coisa e o disciplinar outra. Conhecida a falta, correm prazos e há prescrições. O costume.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

24/06/2012

da autoria deste blogue - inequivocamente

AL, baptizado

Foi-me enviado por mail um comentário ao mais recente artigo do Professor Santana  Castilho, no qual se refere maldosamente este blogue, e cito, "onde ninguém ousa dar a cara pelo que ali se escreve".
AL, 1976 (1º ano c/o prof)

Pois para que não restem dúvidas ao autor do comentário (post no blogue "O Azereiro" -- que proximamente comentarei.. se me apetecer..) ou a quem mais sofra de igual distracção, passo a terminar a transcrição das crónicas com a autoria da publicação (AL) e acrescentei aí na coluna da direita (onde já havia referências bastantes à minha pessoa!!) o nome e link para o meu outro blogue.

AL 2010, escola actual
Não sei se será preciso incluir tb o meu perfil, por via das dúvidas.. coisa(s) que não fiz antes por puro pudor .. 

É, como diz o meu amigo Luís Costa, há gente muito mal intencionada e a quem o Professor Santana Castilho faz uma 'mossa'.. irracional..


Pois..   deixo aqui a minha foto, já agora 
.. ou várias 
.. ou uma cronologia em imagens, melhor decidindo!

21/06/2012

Carta aberta ao ministro Nuno Crato

Carta aberta ao ministro Nuno Crato
in Público, 21/6/2012
Santana Castilho*

Senhor ministro:

Como sabe, uma carta aberta é um recurso retórico. Uso-o, agora que se cumpre um ano sobre a sua tomada de posse, para lhe manifestar indignação pelas opções erradas que vem tomando e fazem de si um simples predador do futuro da escola pública. Se se sentir injustiçado com a argumentação que se segue, tenha a coragem de marcar o contraditório, a que não me furto. Por uma vez, saia do conforto dos seus indefectíveis, porque é pena que nenhuma televisão o tenha confrontado, ainda, com alguém que lhe dissesse, na cara, o que a verdade reclama. 

Comecemos pelo programa de Governo a que pertence. Sob a epígrafe “Confiança, Responsabilidade, Abertura”, garantia-nos que “… nada se fará sem que se firme um pacto de confiança entre o Governo e os portugueses … “ e asseverava, logo de seguida, que desenvolveria connosco uma “relação adulta” (página 3). E que outra relação, senão adulta, seria admissível? O que se seguiu foi violento, mas esclarecedor. O homem que havia interrogado o país sobre a continuidade de um primeiro-ministro que mentia, referindo-se a Sócrates, rápido se revelou mais mentiroso que o antecessor. E o senhor foi igualmente célere em esquecer tudo o que tinha afirmado enquanto crítico do sistema. Não me refiro ao que escreveu e disse quando era membro da Comissão Permanente do Conselho Nacional da UDP. Falo daquilo que defendia no “Plano Inclinado”, pouco tempo antes de ser ministro. Ambos, Passos Coelho e o senhor, rapidamente me reconduziram a Torga, que parafraseio: não há entendimento possível entre nós; separa-nos um fosso da largura da verdade; ouvir-vos é ouvir papagaios insinceros.

Para o Governo a que o senhor pertence, a Educação é uma inevitabilidade, que não uma necessidade. Ao mesmo tempo que a OCDE nos arruma na cauda dos países com maiores desigualdades sociais, lembrando-nos que só o investimento precoce nas pessoas promove o desenvolvimento das sociedades, Passos Coelho encarregou-o, e o senhor aceitou, de recuperar o horizonte de Salazar e de a reduzir a uma lógica melhorada do aprender a ler, escrever e contar. Sob a visão estreita de ambos, estamos hoje, em relação a ela, com a mais baixa taxa de esforço do país em 38 anos de democracia. 

O conflito insanável entre Crato crítico e Crato ministro foi eloquentemente explicado no último domingo de Julho de 2011, no programa do seu amigo, professor Marcelo. Sujeito a perguntas indigentes, o senhor só falou, sem nada dizer, com uma excepção: estabeleceu bem a diferença entre estar no Governo e estar de fora. Quando se está no Governo, afirmou, “tem de se saber fazer as coisas”; quando se está de fora, esclareceu, apresentam-se “críticas e sugestões, independentemente da oportunidade”. Fiquei esclarecido e acedi ao seu pedido, implícito, para arquivarmos o crítico. Mas é tempo de recordar algumas coisas que tem sabido fazer e que relações adultas estabeleceu connosco. 

A sua pérola maior é o prolixo documento com que vai provocar a desorganização do próximo ano lectivo, marcado pela obsessão de despedir professores. Autocraticamente, o senhor aumentou o horário de trabalho dos professores, redefinindo o que se entende por tempos lectivos; reduziu brutalmente as horas disponíveis para gerir as escolas, efeito que será ampliado pela loucura dos giga-agrupamentos; cortou o tempo, que já era exíguo, para os professores exercerem as direcções das turmas; amputou um tempo ao desporto escolar; e determinou que os docentes passem a poder leccionar qualquer disciplina, de ciclos ou níveis diferentes, independentemente do grupo de recrutamento, desde que exista “certificação de idoneidade”, forma prosaica de dizer que vale tudo logo que os directores alinhem. Consegue dormir tranquilo, desalmado que se apresenta, perante um cenário de despedimento de milhares de professores? 

O despacho em apreço bolsa autonomia de cada artigo. Mas é uma autonomia cínica, como todas as suas políticas. Uma autonomia decretada, envenenada por normas, disposições, critérios e limites. Uma autonomia centralizadora, reguladora, castradora, afinal tão ao jeito do marxismo-leninismo em que o senhor debutou politicamente. Poupe-nos ao disfarce de transferir para o director (que não é a escola), competências blindadas por uma burocracia refinada, que dizia querer implodir e que chega ao supino da cretinice com a fórmula com que passará à imortalidade kafkiana: CT=K x CAP + EFI + T, em que K é um factor inerente às características da escola, CAP um indicador da capacidade de gestão de recursos humanos, EFI um indicador de eficácia educativa (pergunte-se ao diabo ou ao Tiririca o que isso é) e T um parâmetro resultante do número de turmas da escola ou agrupamento. Por menos, mentes sãs foram exiladas em manicómios. 

Senhor ministro, vai adiantada esta carta, mas a sua “reorganização curricular” não passará por entre as minhas linhas como tem passado de fininho pela bonomia da comunicação social. O rigor que apregoa mas não pratica, teria imposto o único processo sério que todos conhecem: primeiro ter-se-iam definido as metas de chegada para os diferentes ciclos do sistema de ensino; depois, ter-se-ia desenhado a matriz das disciplinas adequadas e os programas respectivos; e só no fim nos ocuparíamos das cargas horárias que os cumprissem. O senhor inverteu levianamente o processo e actuou como um sapateiro a quem obrigassem a decidir sobre currículo: fixou as horas lectivas e anunciou que ia pensar nas metas, sem tocar nos programas. Lamento a crueza mas o senhor, que sobranceiramente chamou ocultas às ciências da educação, perdeu a face e virou bruxo no momento de actuar: simplesmente achou. O que a propósito disse foi vago e inaceitavelmente simplista. O que são “disciplinas estruturantes” e por que são as que o senhor decretou e não outras? Quais são os “conhecimentos fundamentais”? O que são o “ensino moderno e exigente” ou a “redução do controlo central do sistema educativo”, senão versões novas do “eduquês”, agora em dialecto “cratês”? Mas o seu fito não escapa, naturalmente, aos que estão atentos: despedir e subtrair à Educação para adicionar à banca.

Duas palavras, senhor ministro, sobre o Estatuto do Aluno. É preciso topete para lhe acrescentar a Ética Escolar. Lembra-se da sua primeira medida, visando alunos? Eu recordo-lha: foi abolir o prémio para os melhores, instituído pelo Governo anterior. Quando o senhor revogou, já os factos que obrigavam ao cumprimento do prometido se tinham verificado. O senhor podia revogar para futuro. Mas não podia deixar de cumprir o que estava vencido. Que aconteceu à ética quando retirou, na véspera de serem recebidos, os prémios prometidos aos alunos? Que ética lhe permitiu que a solidariedade fosse imposta por decreto e assente na espoliação? Que imagem da justiça e do rigor terão retirado os alunos, os melhores e os seus colegas, do comportamento de que os primeiros foram vítimas? Terão ou não sobeja razão para não acreditarem nos que governam e para lamentarem a confiança que dispensaram aos professores que, durante 12 anos, lhes ensinaram que a primeira obrigação das pessoas sérias é honrar os compromissos assumidos? Não é isso o que os senhores hoje invocam quando reverenciam Sua Santidade a Troika? Da sua ética voltámos a dar nota quando obrigou jovens com necessidades educativas especiais a sujeitarem-se a exames nacionais, em circunstâncias que não respeitam o seu perfil de funcionalidade, com o cinismo cauteloso de os retirar depois do tratamento estatístico dos resultados. Ou quando, dias antes das inscrições nos exames do 12º ano, mudou as respectivas regras, ferindo de morte a confiança que qualquer estudante devia ter no Estado. Ou, ainda, quando, por mais acertada que fosse a mudança, ela ocorreu a mais de meio do ano-lectivo (condições de acesso ao ensino superior por parte de alunos do ensino recorrente). Compreenderá que sorria ironicamente quando acrescenta a Ética Escolar a um Estatuto do Aluno assente no castigo, forma populista de banir os sintomas sem a mínima preocupação de identificar as causas. Reconheço, todavia, a sua coerência neste campo: retirar os livros escolares a quem falta em excesso ou multar quem não quer ir à escola e não tem dinheiro para pagar a multa, fará tanto pela qualidade da Educação como dar mais meios às escolas que tiverem melhores resultados e retirá-los às que exibam dificuldades. Perdoar-me-á a franqueza, mas vejo-o como um relapso preguiçoso político, que não sabe o que é uma escola nem procurou aprender algo útil neste ano de funções.


* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

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comentários retirados daqui :

Ana Filipe Desconfio que daqui a mais um ano ou dois vou ter que procurar outra coisa para fazer...este governo e estas políticas estão a matar-nos!!! ELES QUEREM MATAR A ESCOLA PÚBLICA!!!!
 
José Carlos G Fernandes No seu melhor nível. Abraço
 
Mariana Piteira Já não exerço (sou aposentada) mas sinto muito pelos que estão a passar por estas vicissitudes. Bonitas palavras professor. Bem haja.
 
Adélia Rodrigues Excelente!
 
Graciete Teixeira Grande defesa da escola pública e dos professores. Obrigada.
 
Manuel Santos Parabéns pela lucidez, análise e registo histórico, Professor. O cratês, a seguir - e de forma mais insidiosa - ao lurdês, vai ser a ruína do sistema educativo nacional ao longo de várias décadas. Levantámos uma sociedade decente desde os anos 70, vêmo-la esboroar-se de dia para dia sob acção desta térmita. Todavia, ainda quero crer que a resistência cidadã pode conseguir minorar um pouco isto, embora não esteja a ver como neste cenário de choldra em que nos atolámos. Obrigado por estes momentos cívicos!
 
Sonia Antunes Antunes De facto não há palavras para descrever a sua genialidade e talento relativamente às suas opiniões, que são sempre esclarecedoras e dilaceram qualquer político! Obrigada!
 
Luís Sérgio Rolão Mendes Excelente, o gume das palavras verdadeiras, pena este país, e, especialmente, os professores andarem tão distraídos.
 
Teresa Ramos Distraídos não andam... por vezes não podem (ou não conseguem) fazer melhor.
 
Luís Sérgio Rolão Mendes Onde escrevi distraídos, queria escrever anestesiados.
 
José Pires de Lima Os ministros passam, mas os críticos ficam para bem da nação! Este ministro, antes voz crítica do sistema, jamais voltará a ter legitimidade para o fazer, pois perdeu toda a credibilidade! Quando fala, já não se ouve a voz nem do crítico nem do ministro, mas de alguém corrompido pelo próprio sistema, para mal da nação.
 
Paula Paulo Muito obrigado pela análise excelente da condição do ensino em Portugal.
 
Sérgio Bernardes Excelente. Obrigado.
 
Helder Silva Como sempre, forntal e incisivo. obrigado
 
Eduardo Coelho Que nunca as mãos lhe doam, caro professor... nem as teclas lhe fiquem presas! Obrigado!
 
Li de Queiroz Quem sabe, ensina...quem não sabe, manda! São os C(r)atos que temos!Força, Professor Santana Castilho. É de alguém como o senhor que a educação precisa.
 
Sofia Fernandes Eu não sou professora. Mas tenho amigas que o são e vejo-as a ensandecer à mercê destes Sr. Ministros da Educação. Eu acreditei no Nuno Crato. Pensei que iria fazer o correcto, ou pelo menos, que não fizesse o incorrecto! O Professor Castilho tem toda a razão no que escreve!! Isto é um puxão de orelhas ao Nuno Crato, muito bem merecido! Cada vez mais acredito que a política é uma casa pestilenta, onde quem respira, apodrece. E nós, cá andamos, com a cabeça entre as orelhas! Os professores e alunos do nosso país estão a ser desconsiderados. E que são eles senão a base da nossa sociedade? Assim, a esperança morre-nos! Obrigada pela sua activa defesa pela ESCOLA, pelos alunos e pelos professores. Um abraço com admiração!
 
Cátia Santos Não podia concordar mais! Bem haja, professor!
 
Cristina Martins Proença Mais uma vez uma lufada de ar puro... As suas palavras Professor.
Obrigado por ser quem É...
 
Ana Cristina Pimenta Sábias palavras.
 
Ana Madeira Apenas uma palavra: OBRIGADA.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

19/06/2012

dos exames e da qualidade do ensino

Hoje, no "Discurso Direto" da TVI24 (15h-16h), mais uma intervenção brilhante do Professor Santana Castilho. O tema em questão eram os exames nacionais e eventual relação com a qualidade do ensino, mas muitas outras feridas foram tocadas por este especialista em gestão educacional. Pena que, de novo, em horário obscuro. Pena que, outra vez, sem o contraditório que se impunha - uma discussão que valesse e durasse e fosse (muito) vista. Ficou o repto de um contraditório com os políticos responsáveis, associações de pais, professores.. Repto sempre lançado pelo Professor (e tanto que o vêm requisitando as televisões ultimamente) estranhamente (ou talvez não..) nunca atendido pelos visados. Razão de sobra para perguntar, "quem tem medo de Santana Castilho?"- Teve-o com toda a certeza Mª L. Rodrigues e os seus capatazes, que com ele nunca ousaram um 'frente-a-frente', têm-no inequivocamente, também, PPC e Nuno Crato e Cia.. 
Por parte da jornalista Paula Magalhães, que me surpreendeu muito agradavelmente, ficou, pelo menos, a declaração da sua disponibilidade, a promessa de um programa finalmente sério sobre esta urgente temática da Educação em Portugal -- assim ela possa. Assim, e cito-a, "todos aceitem estar presentes" .. coisa de que eu, infelizmente, mais que duvido.

Crato e o «cúmulo da cretinice administrativa»

Professor Santana Castilho deixa fortes críticas ao ministro da educação

editorial@mediacapital.pt

O professor universitário Santana Castilho acusou Nuno Crato de não ter capacidade para ser ministro da Educação. No programa Discurso Direto da TVI24, o professor defendeu ainda que a nova fórmula de lançamento do ano letivo é o «cúmulo da cretinice administrativa».

«Há agora uma fórmula de lançamento do ano letivo que é de facto o cúmulo, desculpe, eu meço o termo, é o cúmulo da cretinice administrativa. Uma fórmula complicadíssima, através da qual o ministro Nuno Crato pensa que vai endireitar as escolas», disse.

Questionado pela capacidade do ministro, Santana Castilho foi peremptório em afirmar que Nuno Crato não tem «capacidade». «É um populista, é alguém que desconhece de facto os problemas de uma escola», acusou. 

excerto do programa aqui: