07/06/2013

SANTANA CASTILHO vai estar hoje no programa Discurso Directo - das 15h às 16h, TVI 24

06/06/2013

Crato revelou-se pérfido e ignorante


de Santana Castilho (Notas)

Quarta-feira, 5 de Junho de 2013 
às 20:06


Crato foi ontem entrevistado pelo jornalista Paulo de Magalhães, na TVI 24. A má- fé, a perfídia e a ignorância exalaram do que disse. Tivera alguém informado a possibilidade de o contraditar no momento e o pavão do “Plano Inclinado” teria sido reduzido à sua circunstância: um espanador manhoso. Brevemente, fica algum antídoto ao veneno: 

1. Crato, se fosse sério, falaria de “alguns sindicatos”, referindo-se aos que tomaram a iniciativa de convocar a greve, quando sabe que, entre eles, estão as duas maiores estruturas sindicais de professores, as quais, em conjunto, representam mais de 90% dos sindicalizados? Falaria tanto de diálogo e de abertura, cometendo do mesmo passo a grosseria de dizer que os professores fazem dos alunos seus reféns? Mostrar-se-ia, ontem, um menino do coro, tal era a disponibilidade para conversar com os professores, para hoje os ignorar como destinatários do despacho de lançamento do próximo ano-lectivo (foram os jornalistas que o disponibilizaram aos sindicatos)? 

2. Crato, ministro de coisa nenhuma, desconhece que História e Geografia estão no mesmo “saco” no 2º ciclo do básico. Foi deprimente ouvi-lo dizer que as escolas podem dar mais tempo a uma ou a outra disciplina, como se houvesse duas. 

3. Crato repetiu ad nauseam a expressão “no limite”. Só no “limite” é que serão enviados professores para a mobilidade especial, disse. Deu a entender à opinião pública que foi lançado o alarmismo e que, afinal, tudo ficará em paz excelsa. Ora a mobilidade especial aplica-se aos professores dos “quadros”. A questão que passou de fininho, sem pio, é o que acontecerá aos actuais 13.943 contratados. Que “limite” invocaria o espertalhão se a pergunta lhe tivesse sido feita? 

4. Crato, magnânimo, lembrou ter vinculado 600 professores. Abjecta mentira. Os professores que concorreram aos QZP só estarão vinculados em Setembro … se arranjarem vaga numa escola. E tudo prenuncia que não a terão. Hoje estão contratados. Ontem, Crato disse-os vinculados. Veremos quantos estarão desempregados em Setembro. E Crato não disse, nem com tal foi confrontado, que, quando “vinculou” esses 600, … “desvinculou” … 12.000. 

Quando Crato chegou tinha 139.837 professores. Hoje são 111.704. Já limpou 28.133. 

5. A Crato parece normal enviar um professor para trabalhar a 200 Km da sua residência, mesmo desconhecendo o limite territorial das zonas pedagógicas. Crato reconheceu que os professores já trabalham mais que 40 horas (quando só lhes paga 35). Crato confessou que deve milhões, que deviam ser pagos como trabalho extraordinário. Mas não vai pagar. Crato não se incomoda com o tráfico negreiro da nova era. 

6. Crato, ignorante, disse haver “jurisprudência” sobre serviços mínimos na educação. Não há coisa nenhuma. Houve decisões de tribunais, há anos, que não fizeram jurisprudência. Hoje podem ser diferentes. Pelos vistos, 1 milhão, 71 mil 995 euros e 42 cêntimos, que tem por mês para pagar estudos e pareceres, não chegam para pagar uns trocos a um estagiário de direito, que lhe explique o que é jurisprudência. Sugiro-lhe que se aconselhe com o seu ex-patrão, Isaltino Morais, jurista com tempo para lhe explicar a coisa, actualmente. 

Entendamo-nos: se vierem a ser estabelecidos serviços mínimos (em manifesto atropelo à lei vigente, em meu entender) e os professores não os cumprirem, que pode acontecer? Nada! Ou melhor, requisição civil. E aí é que os professores a terão que cumprir. Mas já Crato, nessa altura, terá engolido a bazófia, porque os exames, naquela data, não se realizarão.

https://www.facebook.com/notes/santana-castilho/crato-revelou-se-p%C3%A9rfido-e-ignorante/560014924048823

05/06/2013

Os três pastorinhos e a greve dos professores

in Público,
5 de Junho de 2013

Santana Castilho *

Os três pastorinhos e a greve dos professores


Depois do presidente Cavaco, que não é palhaço como sugeriu Miguel Sousa Tavares, ter atribuído à Nossa Senhora de Fátima a inspiração da trindade que nos tutela para fechar a sétima avaliação, vieram três pastorinhos (Marques Mendes, Portas e Crato) pregar no altar do cinismo, a propósito da greve dos professores: “ … marcar uma greve para coincidir com o tempo dos exames nacionais … não é um direito … é quase criminoso … é uma falta de respeito … ” (Marques Mendes); “… se as greves forem marcadas para os dias dos exames, prejudicam o esforço dos alunos, inquietam as famílias …” (Portas); “… lamentamos que essa greve tenha sido declarada de forma a potencialmente criar problemas aos nossos jovens, na altura dos exames …” (Crato). Marques Mendes “redunda” quando afirma que a greve é um direito constitucional. Mas depois qualifica-a de abuso e falta de respeito. Que propõe? Que se ressuscite o papel selado para que Mário Nogueira e Dias da Silva requeiram ao amanuense Passos a indicação da data que mais convém à troika? Conhecerá Portas greves com cores de arco-íris, acetinadas, que sejam cómodas para todos? Que pretenderia Crato? Que os professores marcassem a greve às aulas que estão a terminar? Ou preferia o 10 de Junho? A candura destes pastorinhos comove-me. Sem jeito para sacristão, chega-me a decência mínima para lhes explicar o óbvio, isto é, que os professores, humilhados como nenhuma outra classe profissional nos últimos anos, decidiram, finalmente, dizer que não aceitam mais a desvalorização da dignidade do seu trabalho. 
  • Porque se sentem governados por déspotas de falas mansas, que instituíram clandestinamente um estado de excepção. 
  • Porque, conjuntamente com os demais funcionários públicos, se sentem alvo da raiva do Governo, coisas descartáveis e manipuláveis, joguetes no fomento das invejas sociais que a fome e o desemprego propiciam. 
  • Porque têm mais que legítimo receio quanto à sobrevivência do ensino público. 
  • Porque viram, na prática, os quadros de nomeação definitiva pulverizados pelo arbítrio. 
  • Porque rejeitam a vulgarização da precariedade como forma de esmagar salários e promover condições laborais degradantes. 
  • Porque foram expedientes perversos de reorganização curricular, de aumento do número de alunos por turma e de cálculo de trabalho semanal que geraram os propalados horários-zero, que não a diminuição da natalidade, suficientemente compensada pelo alargamento da escolaridade obrigatória e pela diminuição da taxa de abandono escolar. 
  • Porque a dignidade que reivindicam para si próprios é a mesma que reclamam para todos os portugueses que trabalham, sejam eles públicos ou privados. 
  • Porque sabem que a tragédia presente de professores despedidos será o desastre futuro dos estudantes e do país. 
  • Porque a disputa por que agora se expõem defende a sociedade civilizada, as famílias e os jovens. 

Rejeito a modéstia falsa para afirmar que poucos como eu terão acompanhado o evoluir das políticas de educação dos últimos tempos. Outorgo-me por isso autoridade para afirmar que é irrecuperável a desarmonia entre Governo e professores. A confiança, esse valor supremo da convivência entre a sociedade civil e o Estado, foi definitivamente ferido de morte quando a incultura, a falta de maturidade política e o fundamentalismo ideológico de Passos, Gaspar e Crato trouxeram os problemas para o campo da agressão selvagem. Estes três agentes da barbárie financeira vigente confundiram a legitimidade eleitoral, que o PSD ganhou nas urnas, com a legitimidade para exercer o poder, que o Governo perdeu quando escolheu servir estrangeiros e renegar os portugueses e a sua Constituição. Com muitos acidentes de percurso, é certo, a Nação cimentada pela gestão solidária de princípios e valores de Abril está a ser posta em causa por garotos lampeiros, apostados em recuperar castas e servidões. Alguém lhes tem que dizer que a educação, além de direito fundamental, é instrumento de exercício de soberania. Alguém lhes tem que dizer que princípios que o Ocidente levou séculos a desenvolver não se podem dissolver na gestão incompetente do orçamento. Alguém lhes tem que dizer que o desemprego e a fome não são estigmas constitucionais. Que sejam os professores, que no passado se souberam entender por coisas bem menores do que aquelas que hoje os ameaçam, esse alguém. Alguém suficientemente clarividente para vencer medos e comodismos, relevar disputas faccionárias recentes, pôr ombro a ombro contratados com “efectivos”, velhos com novos, os “a despedir” com os já despedidos. Alguém que defenda o direito a pensar a mais bela profissão do mundo sem as baias da ignorância. Alguém que diga não à transformação da educação em negócio. Alguém que recuse transferir para estranhos aquilo que nos pertence: a responsabilidade pelo ensino dos nossos alunos. 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)


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«Às Professoras e aos Professores que não vergaram, que não empenharam a sua dignidade profissional nem venderam a sua independência intelectual.» - in Os Bonzos da Estatística (2009) , dedicatória do Professor Santana Castilho
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comentários retirados daqui:

Paula Sofia Gomes LÚCIDO! CORAJOSO! COMPETENTE! Muito obrigada por continuar a ser a voz da nossa "agonia".
Ana Cristina Tudella Mais uma vez EXCELENTE! muito obrigada professor.
 
Sá Gouveia Belíssimo texto, amigo Castilho. Subscrevo totalmente as suas palavras.
Natália Ramos Extraordinário. Belíssimo texto, algo a que nos vem habituando. Muito obrigado professor por lutar pela educação.
Ana Lima Não é só um belíssimo texto. É uma bandeira, um grito de alerta, a representação do que devia ser uma consciência colectiva. Este é o cravo vermelho que os professores deviam ostentar, orgulhosos e unidos nesta luta que é a de um povo e de um país, e tem em Santana Castilho o seu paladino e o seu arauto MAIOR!
João Daniel Pereira Extraordinário, professor Santana Castilho. Obrigado! Que os professores o leiam e ganhem força para alterar o "estado a que chegámos"...
Manuel Aleixo "Alguém que defenda o direito a pensar a mais bela profissão do mundo sem as baias da ignorância. Alguém que diga não à transformação da educação em negócio. Alguém que recuse transferir para estranhos aquilo que nos pertence: a responsabilidade pelo ensino dos nossos alunos" - Repesco esta asserção final do teu clarividente grito de alerta. Mais um, caro amigo! Um dia próximo os fariseus serão expulsos do Templo!
Luís Sérgio Rolão Mendes Mais uma vez, obrigado. Haja coragem suficiente, inteligência e capacidade de direcção e desta vez conseguimos gelar o riso dos palhaços que nos desgovernam e querem abater a profissão
Tomás Taveira da Costa Ao ler-te hoje no café da manhã, lamentei que, fosse por intercessão da Santa ou dos verdadeiros Três Pastorinhos, não fosse possível fazer chegar toda a tiragem de hoje do Público a todas as Salas de Professores, para que algumas consciências ainda insuficientemente indignadas pudessem ler o teu artigo. Grande Abraço e bem hajas.
Manuela Graça Tenho que , obrigatoriamente, partilhar...Obrigado PROFESSOR!

recebido via e-mail (continuo a não conseguir visualizar os comentários aqui.. ):

Manuel João Castelo Branco deixou um novo comentário na sua mensagem "Os três pastorinhos e a greve dos professores":
Gostei do que li. É um grito de revolta, uma análise lúcida e adulta do estado da educação pública em Portugal neste tempo dos Passos, dos Coelhos, dos Sócrates e Cratos. - É preciso agir lutar e vencer esta gente que quer destruir a Escola Pública como conquista da democracia para servir alguns senhores.


 



23/05/2013

Santana Castilho no Económico Tv: da greve dos professores


O Professor Santana Castilho foi ontem o convidado do programa Assembleia Geral, no ETv - canal 16. Podem ainda vê-lo via 'gravações automáticas' , até à próxima 4ª feira.

Foram vários os assuntos abordados, nomeadamente o refutar do sacrossanto argumento de que haverá professores a mais..

Registo aqui (enquanto não está disponível o vídeo) parte das declarações de Santana Castilho, no caso as que se prendem mais directamente com a anunciada greve dos professores às avaliações e ao exame nacional de Português (12º ano), no dia 17 de Junho.
(foram feitas pequenas adaptações do discurso oral para registo escrito)

*           *           *


-- sobre a hipótese de requisição civil para prestação de "serviços mínimos" e artigo de Maria de Lurdes Rodrigues:

«O ministro Nuno Crato não tem feito outra coisa que não seja prosseguir aquilo que de pior herdou do consulado de Maria de Lurdes Rodrigues, que, aliás, já o veio aconselhar neste aperto em que agora vai entrar - refiro-me à greve dos professores - já o veio aconselhar, ignorante das alterações legais que entretanto aconteceram, a socorrer-se de um despacho de 2005 que invalidou (bom, não invalidou, porque entretanto os professores titubearam...) uma greve que esteve prevista aos exames.

A senhora (MLR) (...) esqueceu-se de ver que a lei entretanto foi mudada (...) 
Os funcionários públicos no geral e os professores em particular são alvo de autêntico terrorismo social, mas o país ainda não está propriamente em 'regime de excepção', embora muitas das medidas dêem a entender isso. E, portanto, há leis! 
Está vigente a lei que define o que são 'serviços mínimos', que define o que é uma 'requisição civil' e quando é que pode ser feita. Nessa lei eu não vejo (...) nenhuma hipótese de o governo invalidar um direito que é um direito constitucional - ainda é um direito constitucional! - se a memória não me falha, o artigo 57 da Constituição da República, que diz que a greve é um direito dos portugueses.
Tudo aquilo de que se tem falado -- aliás o ministro (Nuno Crato) já disse que não ia permitir que os alunos fossem prejudicados -- tudo o que tem sido feito, em minha leitura, é para colocar obstáculos à adesão dos professores à greve.
Penso que os professores têm estado adormecidos .. Espero que, desta vez, acordem e que, com a responsabilidade social que têm, e com a responsabilidade ética acrescida que têm, dêem um exemplo ao país, dizendo que nem tudo é possível. Que há um momento em que, de facto, temos que parar, temos que inverter, porque o 25 de Abril, todas as aquisições civilizacionais conseguidas neste país não são para retroceder desta maneira bárbara que estamos a presenciar actualmente.
(...)
Entendamo-nos: conhece alguma greve que seja 'simpática'? (...)
É evidente que uma greve aos exames tem um impacto maior. Os exames não são nada que não se possa resolver noutra altura. É óbvio que é um incómodo para as famílias e para os alunos..
Toda a política e toda a acção do Ministério da Educação, designadamente do ministro Nuno Crato e deste governo tem prejudicado muitíssimo mais os alunos portugueses, as crianças portuguesas e as famílias portuguesas, do que a greve que os professores pretendem fazer.
É preciso que os portugueses percebam, que os pais percebam e que os cidadãos percebam que, das políticas deste governo, o que está a resultar é claramente a criação de uma escola para ricos e de uma escola para pobres. Uma escola-mínima para pobres e uma outra escola que possa ser paga pelos ricos.»

-- A escola para pobres será a Escola Pública?

« É a escola que já temos aí. Há dois ou três dias, uma colega minha do ensino superior falou comigo, perfeitamente esmagada pelo acontecimento: um aluno dela tinha desmaiado com fome - no ensino superior! Isto aconteceu numa escola pública!
Nós temos casos constantes de crianças (isso é do domínio geral!) que apenas na escola têm uma refeição.
Nós tivemos uma diminuição drástica de todo o tipo de serviços que eram prestados para ajudar aqueles alunos que têm condições socio-económicas mais débeis. Tudo isso está a desaparecer.
As necessidades educativas especiais, hoje em dia, são uma sombra daquilo que eram há meia dúzia de anos..
Esta autêntica escravatura que se propõe para os professores vai obviamente reflectir-se na qualidade do ensino, no tratamento que é dispensado às crianças.
Portanto, este, sendo aparentemente um problema dos professores, é um problema dos pais, é um problema dos alunos, é um problema do cidadão que tenha consciência cívica.
Nós não caímos ainda numa república onde tudo é válido, tudo se pode fazer porque dois senhores basicamente, Passos Coelho e Vítor Gaspar, entendem que os portugueses estão depois da reverência à troika, à senhora Merkel e, enfim, aos senhores do dinheiro, aos grandes ditadores de Passos Coelho.
(...)

Há um problema na Europa... Tenho consciência - todos temos consciência - de que o problema do país é um problema de índole económica, de falta de crescimento; é um problema que não se consegue resolver sem que as coisas na Europa mudem também. 
Agora, quando as questões, aqui, começam a pôr-se ao nível dos mínimos éticos, dos mínimos morais, então alguma coisa tem que acontecer! E eu espero que esta acção dos professores sirva para despertar consciências, porque nós precisamos de despertar a consciência dos portugueses.
É evidente que aqueles que sofrem este quadro de despedimento, aqueles que não têm dinheiro para dar de comer aos filhos, esses não precisam de ser despertados. Infelizmente, não são esses que têm instrumentos para levar a que estes governantes mudem de política e percebam que, antes de prestar vassalagem ao poder do dinheiro, têm que servir os portugueses. É esta a questão que se coloca. »
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22/05/2013

A falta de senso dos defensores do consenso

Público, 22 de Maio de 2013

Santana Castilho*

A falta de senso dos defensores do consenso


Diariamente, grandes e pequenas coisas, afinal aquilo de que é feita a vida, desfilam em alardes de falta de senso, mesmo quando os seus intérpretes, por inerência dos cargos que ocupam, dele nunca devessem prescindir. O país não está só em recessão e depressão. Parece gerido a partir de uma nave de loucos. 

1. Em nome do consenso, Cavaco Silva criticou Paulo Portas por falar e expor, em público, a fragilidade da coligação moribunda. Mas não se coibiu, ele próprio, de defender, em público, o que Portas disse. Que a senhora de Fátima (segundo ele provável responsável pela conclusão da sétima avaliação) lhe ilumine o senso comum, já que os “cidadões” (novo presidencial plural) recusam consensos sabujos. 

2. Não é de senso comum ou sequer mínimo que se trata quando se ouve, como ouvimos, o primeiro-ministro afirmar, naquele jeito característico de estadista de Massamá, que os cortes apresentados ao eurogrupo não se aplicam à generalidade dos cidadãos mas, tão-só, aos reformados e funcionários públicos. A questão é de siso. Não o tem, de todo, quem teima em dividir os portugueses em subespécies: os espoliáveis, sem direito a pio, e a “generalidade”, salva e agradecida. 

3. Alguém dotado de senso mínimo acreditará que a pantomina da linha vermelha não seja a expressão combinada da total falta de senso de governantes empenhados em aterrorizar todos para aplicar a alguns as últimas patifarias do poder? Seria sensato Passos Coelho anunciar, a 3 de Maio, uma taxa sobre as pensões, sem que Paulo Portas o soubesse, ou que o primeiro ignorasse a fanfarronice que o segundo iria proferir, a 5, e engolir uma semana depois? Escrevi “patifarias do poder” e dou aqui por soletrada a expressão, para que resulte claro que pesei o que escrevi. Ou alguém de senso acha inadequado o qualificativo para designar o modelo anunciado de fuzilamento moral de funcionários públicos? 

4. O país não ensandecido assistiu, atónito, à leviana falta de senso de alguns deputados. “Os Verdes”, sem passarem os olhos pelos programas de ensino, propuseram resolver o que há décadas está resolvido, isto é, o estudo da Constituição da República Portuguesa no contexto de várias disciplinas curriculares, designadamente História e História e Geografia. Fernando Negrão, magistrado, deputado e cumulativamente presidente da Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, tudo isto, pasme-se, defendeu que os nossos alunos não devem ter qualquer contacto com a Constituição vigente. Porque ele, a coberto da sua beca e imunidade parlamentar, a decretou “datada” e senhora de uma “carga ideológica muito forte”. Nuno Crato implodiu a área da Formação Cívica. Fernando Negrão quer banir o ensino da Constituição. Compreendemos porquê. Basta seguir a conduta protofascista de Passos e Gaspar. Os direitos humanos, os direitos sociais, os direitos culturais, as liberdades e as garantias, que resistiram às revisões de 1982 e 1989, são insuportáveis para quem governa em regime de excepção encapotada. 

5. Mal foi anunciada a greve dos professores, surgiram, cândidos, dois discursos: o dos que a condicionam a não perturbar a tranquilidade do chá das cinco e o dos que só militam na solução que nunca é proposta. Aos primeiros, é curioso vê-los invocar o direito de uns, com as botas cardadas calcando os direitos dos outros. Aos segundos, repito o que em tempos aqui escrevi: os professores sabem, têm a obrigação de saber, que todo o poder só se constrói sobre o consentimento dos que obedecem. Quando vos tocarem à porta, não se queixem! 

Trinta alunos por turma, 300 alunos por professor, mais horas de trabalho lectivo, mais horas de trabalho não lectivo, menor salário, carreiras e progressões congeladas vai para 7 anos, obrigatoriedade de deslocação a expensas próprias entre escolas do mesmo agrupamento, exercício coercivo a centenas de quilómetros da residência e da família, desmotivação continuada e espectro do desemprego generalizado, são realidades que afectam os professores, em exclusivo? Não afectam os alunos? Não importam aos pais? Ao futuro colectivo? 

A diminuição do financiamento dos serviços de acção social escolar, quando o desemprego dos portugueses dispara e a fome volta às nossas crianças, bem como a remoção sistemática, serviço após serviço, das respostas antes existentes para necessidades educativas especiais, é problema corporativo dos professores ou razão para que a comunidade civilizada se mobilize? A drástica diminuição dos funcionários auxiliares e administrativos, a redução das horas de apoio individualizado aos alunos, o aumento do preço dos manuais e dos passes e a deslocação coerciva de crianças de tenra idade para giga agrupamentos são problemas exclusivos dos professores? 

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)


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(re)ponho-o aqui, pq não consigo ver os comentários no blogue, nem sequer um sítio para deixar comentários, por muitas configurações que tente .. :( 
recebido via e-mail:
Luís Sérgio deixou um novo comentário na sua mensagem "A falta de senso dos defensores do consenso":

Mais uma excelente crónica. Bem-haja, professor pela defesa pública de uma classe em extinção e que tarda em acordar.
Como depreendo das suas palavras, aos professores resta lutar antes que seja tarde. É preciso urgentemente unir todos os democratas e patriotas deste país (protectorado) para corrermos de vez com este governo fascista. Antes que seja tarde ... cumpramos o nosso dever.
Abraço solidário,
Luís Sérgio

outros comentários, retirados da página facebook do Professor Santana Castilho:


Mário Jorge O Professor Santana Castilho está sempre a avisar-nos, mas parece que a maioria dos docentes está à espera que os outros façam aquilo que temos de ser nós a fazer; lutar pelos nossos justos direitos para não permitirmos que hipotequem o futuro da Educação em Portugal.

Manuel Aleixo Como partilhar estes dois gritos de alerta? Como fazer para estar ao lado da gente espoliada do ensino, numa mesma trincheira, na luta contra a outra gente que se apoderou do poder e nos humilha, anunciando a terra queimada? Amigo Santana Castilho, profeta e voz incomoda, comanda essas hostes desorientadas. Sê tu o timoneiro, porque és a voz da Razão. Os meus netos hão-de abraçar-te, agradecer-te. Eles olham para esse grito lancinante do jovem grego e sentem-se um igual, sem futuro. 

Amélia Santos Rosa Bravo, Professor Santana Castilho, um dos maiores sabedores do nosso tempo, que tem da educação uma visão lúcida, coerente, diversificada, não só livresca como vivida. Ele avisa há muito tempo. É preciso acordar e gritar bem alto basta! Unidos, professores, pais. alunos. a comunidade em geral.
Pensem nas nossas crianças e esses loucos e senis que nos governam. Desapareçam de vez! O teu artigo está femomenal Leiam com atenção, meditem,ajam! Obrigada professor, obrigada amigo!
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Luís Sérgio Rolão Mendes Bem haja professor, pela sua coragem e lucidez na defesa pública dos professores. É verdade que os docentes tardam em acordar, mas não podem hesitar muito, se não será tarde demais. Precisamos de nos unir todos, todos os democratas e patriotas deste país para correr com este governo de loucos fascistas.

08/05/2013

Marques Mendes errou grosseiramente na SIC

no Público,
8 de Maio de 2013

por Santana Castilho *

Marques Mendes referiu-se à situação dos professores portugueses, no sábado passado, durante o programa de análise política que mantém na SIC. Fê-lo com ligeireza. Evidenciou desconhecimento. Adulterou a verdade. Os erros em que incorreu serviriam para validar a tese oficial de que temos professores a mais e legitimariam os despedimentos futuros, se não fossem corrigidos. Marques Mendes apresentou três gráficos. O primeiro mostrava a evolução do número total de alunos, de 1980 a 2010. O segundo fazia o mesmo exercício, circunscrito aos alunos do 1º ciclo do ensino básico, para concluir que, entre 1980 e 2010, perdemos 51% desses alunos. E o terceiro gráfico dizia-nos que, no mesmo período, isto é, de 1980 a 2010, o número de professores tinha crescido 53%. Para que dúvidas não restassem, Marques Mendes colocou, lado a lado no écran, o 2º e o 3º gráficos e foi claro nas explicações acessórias: o crescimento dos professores fez-se em contraciclo; os governos anteriores falharam, fazendo crescer os professores à taxa de 53%, enquanto os alunos diminuíam à taxa de 51%. Só que, quando comparamos o incomparável, corremos o risco de passar de pavão a espanador. Marques Mendes, ao dizer na SIC, como disse, que os professores cresceram 53%, passando de 95.400 em 1980, para 146.200 em 2010, usou o número de professores respeitantes a todo o sistema escolar não superior (1º. 2º e 3º ciclos do ensino básico, mais o ensino secundário). Como é evidente para qualquer, Marques Mendes só poderia relacionar o decréscimo dos alunos do 1º ciclo com a evolução do número de professores do 1º ciclo. E o que aconteceu a esse universo de professores? Cresceu 53% como disse o descuidado comentador? Coisíssima nenhuma! Em 1980 tínhamos 39.926. Em 2010 eram 31.293. Não cresceram na disparatada percentagem com que Marques Mendes enganou o auditório da SIC. Outrossim, registou-se uma diminuição de 8.633 professores. 

Dir-se-á, removido o disparate, que a diminuição de professores não foi proporcional ao decréscimo de alunos, no ciclo de estudos em análise. Outra coisa não seria de esperar, considerando as alterações curriculares introduzidas nos 30 anos em apreço. Cito, a mero título de exemplo, a escola a tempo inteiro, que aumentou drasticamente a permanência dos alunos na escola, a introdução do Inglês no ensino básico, as actividades de enriquecimento curricular, as múltiplas modalidades de apoio a alunos carenciados, a diminuição das reprovações e a forte redução do abandono escolar. Se extrapolarmos estas considerações para o ensino secundário, não pode ser ignorado o novo regime da escolaridade obrigatória de 12 anos nem, tão-pouco, a circunstância de o número de professores que Marques Mendes situa em 2010 (146.200) ser hoje, em 2013, bem mais baixo: 111.704 (uma redução, de 2010 para 2013, de 34.496 docentes). Que isto não caiba na folha de Excel de Gaspar, que não acerta uma, já não surpreende. Que seja menosprezado pela insensibilidade e demagogia de Passos Coelho, cuja palavra vale nada, já é normal. Que tenha passado ao lado do rigor que se esperaria de quem ajuda a formar a opinião pública, no momento em que os funcionários públicos, em geral, e os professores, em particular, estão condenados a carregar a albarda pesada da incompetência do Governo, é intolerável. É péssimo serviço público. É serviço sujo. 

A diminuição da natalidade está muito longe de explicar a brutal redução do número de professores. O erro grosseiro de Marques Mendes ajudou a branquear o impacto de sucessivas medidas, cujo intuito se centrou, exclusivamente, em ganhos financeiros, a saber: encerramento de milhares de escolas, com a deslocação compulsiva de vastas populações de crianças de tenra idade e a correlata criação de criminosos giga-agrupamentos, inéditos no mundo civilizado; redução dos tempos lectivos de algumas disciplinas e abolição de outras; aumento do número de alunos por turma; aumento da carga horária dos professores; drástica redução das iniciativas de segunda oportunidade para os que abandonaram precocemente o sistema formal de ensino; e transferência para o Instituto de Emprego e Formação Profissional de valências que, antes, pertenciam às escolas públicas. Como se não tivéssemos 3.500.000 cidadãos, com mais de 15 anos, sem qualquer diploma ou apenas com a certificação do ensino básico. Como se não tivéssemos 1.500.000 cidadãos, entre os 25 e os 44 anos, que não concluíram o ensino secundário. Como se fosse possível crescer economicamente travando, sem critério nem visão, um esforço de 30 anos. Os 30 anos que Marques Mendes mal centrou na desfocada fotografia que revelou na SIC. 

Marques Mendes não citou as suas fontes. As minhas foram: D.R., DGEEC/MEC, Pordata, “50 Anos de Estatísticas de Educação”- GEPE e INE. 

* Professor do ensino superior (s.castilho.@netcabo.pt) 

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comentários retirados da pg. facebook do Professor Santana Castilho:

Ricardo Gonçalves Partilhei porque é importante desintoxicar a sociedade destas acções de propaganda ao pior nível.
Maria Manuela Henriques Excelente !...
Sá Gouveia Que alguém ponha os pontos nos ii. Obrigado.
Ilídio Trindade Uma vez mais... soberbo!
Graciete Teixeira Marques Mendes é um Boy PSD e com uma visão muito desfocada da realidade - provavelmente intencionalmente - o problema não é a taxa de natalidade, o problema é a ideia de assassínio da escola pública, presente na cabeça deste governo. Não há professores a mais, nem alunos a menos, há sim, cada vez mais, escola a menos, graças às políticas faraónicas destrutivas de um ministro da educação que parece perceber apenas de números e não de escola ou educação. Este ministro da educação só serve para uma coisa: contar rebanhos.
Ernesto Costa Este triste sobrevivente da política portuguesa diz coisas que agradam a tolos (ou ignorantes cratinos) e procura confundir quaisquer princípios de explicação racional das coisas. Marques Mendes, "o coment(d)a-dor", faz-nos lembrar a Lenda Justiça de Fafe (sec.XVIII) de um certo marquês, que depois de insultar um tal visconde de Moreira Rei (Marques Mendes insulta os professores!), se viu obrigado a enfrentá-lo num duelo. Este como ofendido escolheu como armas, dois resistentes varapaus! Como o marquês (tal como Marques Mendes), não sabia manejar tais armas (tal como Marques Mendes e os seus três gráficos!), acabou por levar uma grande sova!... Viva a Justiça de Fafe! 
Bem haja, Professor Santana Castilho, por denunciar o tão péssimo serviço público que Marques Mendes presta ao País! "É sujo, sujo, sujinho!".
Luis Garcia Bom exemplo de como os comentadores criam uma espécie de opinião única assente na mentira. A capacidade reprodutiva da televisão é muito maior que esta excelente e honesta desconstrução da mentira, ainda que publicada num jornal de grande tiragem e amplamente partilhada aqui no Facebook.

Maria Emília Pires Haja alguém que se digne informar corretamente, baseando-se em factos comprovados. Apenas posso expressar os meus agradecimentos e divulgar.

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24/04/2013

É mentiroso ou ignorante. Refiro-me a Nuno Crato!

retirado do facebook
publicado (aqui) por Santana Castilho, ontem à noite:
 

Reajo, a quente e indignado, a uma entrevista que acabo de ver em directo, na RTP1, no Telejornal das 20.00. Nuno Crato pode revogar autocraticamente o programa de Matemática para o ensino básico. Porque a Lei não tipifica o crime pedagógico. Pode asnear em público, porque a asneira é livre. Pode escravizar os professores, até que eles consintam. Pode ir mais ao bolso dos pais, se eles não reagirem. Mas não mente sem pudor, nem manipula a opinião pública com descaro, porque eu não deixo. Por dever cívico.

Crato disse que o programa que anulou estava datado e era antigo. Crato mentiu. Pode não gostar dele, mas não pode apagar a actualidade científica e pedagógica que o informa. Datadas e ridículas são as metas que tem parido. As de Matemática, as de Português, as de História, todas. Bafientas. Exalando naftalina. Inaplicáveis. Inúteis, como ele. 

Questionado pelo jornalista quanto ao êxito, internacionalmente reconhecido, dos nossos resultados em Matemática, Crato disse que estávamos a ser comparados com os medíocres e continuávamos abaixo da média. Crato mentiu. Fomos 15º em 50 países. Ficámos muito acima da média. Fomos o país do mundo que mais progrediu nos resultados em Matemática. Ultrapassámos a Alemanha, Irlanda, Áustria, Itália, Suécia, Noruega e Espanha, entre outros. É intelectualmente desonesto dizer o que Crato disse. 

Falando da palhaçada do concurso que tem em mãos, Crato recordou que em 2009 abriram 30.000 vagas, para entrarem poucos mais que 300 professores. Crato mentiu. Foram cerca de 20.000 as vagas de 2009. Quanto aos que vão entrar agora … veremos, adiante, o logro que está a congeminar. 

Interrogado sobre os manuais que irão para o lixo e sobre as actividades de enriquecimento curricular que os pais passarão a pagar, Crato foi artista e saiu de fininho, como um vulgar cínico. 

Parafraseando Almada-Negreiros, o Crato é um soneto dele próprio! Deplorável!

alguns dos comentários:


Evaristo Frois Parabéns pela frontalidade Professor Santana Castilho, assim existissem mais como o senhor, um abraço e continue.

Cristina Araújo Frontalidade acima de tudo! Parabéns Professor Santana Castilho, pela sua incisiva análise!

Luís Salvado Parabéns! Uma vez mais disse tudo o que se impunha. Como sempre, aliás. Uma análise correcta, assertiva e carregada de grandes verdades.
 
P.S: Nuno Crato é naturalmente ignorante e perigosamente mentiroso. Para a história ficará como o ME que se andou a promover na TV, chegou onde ambicionava e destruirá, de forma criminosa, a escola pública.


Cristina Martins Proença Partilha "obrigatória"!!! Reaja Professor... Houvesse mais... E reagíssemos todos juntos!!!

Ana Cristina Tudella Concordo a 100% consigo. Também eu estou indignadissima com as declarações deste ministro e com a quantidade de mentiras ditas. (Ou ignorância demonstrada). Não nos podemos calar...

Ernesto Costa Crato pode ser um bom matemático, mas é um péssimo ministro!...Como pode sujeitar-se a um tão triste papel, a uma tão melancólica e triste Sinecura?!...Obrigado, professor, pela sua coragem!

Sofia Fernandes Bem se vê que está revoltado. Nota-se pela sua escrita!! É bom ler alguém revoltado e indignado com este (des)governo! Nao um alguém qualquer - um ilustre Santana Castilho! Obrigada por o desmentir, ou por lhe insultar a inteligência - é o que ele merece. Que a sua voz não se cale, mas principalmente que a ouçam! 

António Inácio excelente, que não lhe doa a voz nem lhe trema a caneta ou o teclado, alguém tem que dizer "o rei vai nu", bravo, professor
Margarida Borges Obrigada Senhor Professor. É um privilégio poder ler as suas verdades.

Maria Antónia Pinto Também reparei na falta de rigor nos números citados pelo ministro e na linguagem. Gosto das suas cronicas pela acutilância e frontalidade. Obrigada

De regresso ao passado


In "Público" de 24.4.13
por Santana Castilho


1. Nuno Crato, antes de ser ministro, tinha um farol para a Matemática: o TIMMS (Trends in International Mathemathics and Science Study), programa prestigiado internacionalmente, que, de quatro em quatro anos, mede os resultados do ensino da Matemática, num conjunto extenso de países. Clamava pela necessidade de entrarmos nessa roda, onde, em 1995, ocupámos um dos últimos lugares. Talvez por isso, ficámos de fora em 1999, 2003 e 2007. Voltámos em 2011, ano da Graça em que Crato passou a ministro e emudeceu em relação ao TIMMS. Porquê? Porque as pessoas que ele denegriu e os métodos que ele combateu fizeram história no seio do TIMMS. Portugal, em 2011, foi 15º em 50 países. Portugal foi o primeiro na escala que mediu o progresso: foi o país que mais progrediu no universo dos 50 classificados. Portugal foi melhor que a Alemanha, Irlanda, Áustria, Itália, Suécia, Noruega e Espanha, entre outros. E que fez Nuno Crato? Acabou com o programa de Matemática do ensino básico, que contribuiu para um sucesso a que não estávamos habituados. Substituindo qualquer avaliação fundamentada por juízos de valor, alicerçados no “achismo” que o caracteriza. Surdo à indignação dos docentes. Contra as associações de professores da disciplina. Com um comportamento autocrático, guiado pela sua nova luz: a do regresso às décadas do Estado Novo. 

Em linguagem imprecisa e discurso sem rigor, o ministro justifica que o novo programa, que não é ainda conhecido, virá “complementar as metas curriculares”, cujo uso tem tido “resultados muito positivos nas escolas”. Um programa “complementa” metas? As metas a que se refere, ou não estão a ser aplicadas ou suscitam a perplexidade dos professores, que vêem nelas um retrocesso metodológico. Por onde anda o ministro? De que fala? Quem o informa? 

O presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática admitiu que o novo programa irá originar uma confusão desnecessária. A Sociedade Portuguesa de Investigação em Educação Matemática, em sede de discussão pública das metas, em Julho passado, denunciou a incoerência que representavam, face ao programa vigente. João Pedro da Ponte, um dos autores do programa, considera que as metas estabelecidas para a disciplina configuram um recuo de décadas. No juízo que formulou é acompanhado pela presidente da Associação dos Professores de Matemática, organização que, em Março, ameaçou interpor nos tribunais uma acção para impedir a aplicação das metas, por conflituarem com o programa. O ministro parece ter actuado com impulso vingativo. Invocam conflito entre metas e programa? Corrigem-se as metas? Não! Muda-se o programa! 

Borda fora, irresponsavelmente, vão milhares de horas de formação de professores e o envolvimento de anos de um enorme conjunto de instituições. Borda fora, levianamente, vai o financiamento de uma acção que deu resultados, internacionalmente reconhecidos. Borda fora irão os manuais escolares, há pouco aprovados. E alunos e professores aguentarão mais um experimentalismo, pedagogicamente criminoso, decidido por um rematado incompetente. 

2. Correm rios de tinta sobre o concurso de professores. Não repetirei o que é público, o que os directores mais corajosos já denunciaram e o que os mais informados já escreveram. Não há concurso nacional de professores. Há uma coreografia sinistra, uma espécie de dança macabra de lugares, para preparar um despedimento de mais 12.000 docentes. É isso que está em causa. Não as reais necessidades das escolas, muito menos as do país vindouro. As estatísticas disponíveis (DGEEC/MEC, PORDATA), permitem concluir que tínhamos no sistema público de ensino não superior, em 2000, 1.588.177 alunos para 146.040 professores. Em 2011 (últimos dados disponíveis), passámos a ter 1.528.197 alunos para 140.684 professores. Ou seja, o sistema perdeu 59.980 alunos e 5.356 professores, mantendo-se a relação professor/alunos. Não há dados publicados referidos ao momento presente. Mas sabemos que a alteração da escolaridade obrigatória terá considerável impacto na necessidade de professores, sendo certo que a invocada diminuição da natalidade não é expressiva entre 2011 e 2013. E o que aconteceu ao número de professores? Considerando os contratados e os que saíram do sistema, teremos, hoje, cerca de 111.600. Em dois anos, perdemos 29.084 professores. Diminuição da natalidade? Sejam honestos: exclusiva preocupação com a redução de custos, sem nenhuma sensibilidade para o futuro. Porque temos 3.500.000 portugueses com mais de 15 anos, que não têm qualquer diploma ou apenas concluíram o ensino básico. Porque temos 1.500.000 portugueses, entre os 25 e os 44 anos, que não concluíram o ensino secundário. Porque, apesar dos progressos, persiste uma Taxa de Abandono Precoce de 27,1%, a maior da Europa. Porque estamos de regresso ao passado.

comentários (retirados daqui)
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Celeste Matoso Albardeiro Obrigada, mais uma vez. O professor Santana Castilho é uma das poucas pessoas que sabe efetivamente do que fala. Apresenta as suas razões de forma clara, mostra dados, contraria com elementos concretos, desmonta o falacioso e o falso, não embarca em generalidades, etc, etc. E são tão poucos os intelectuais deste país com este calibre mental e simultaneamente corajosos!

Ana Cristina Tudella Muito obrigada professor, pela clareza da sua escrita e pela coragem em criticar a hedionda e irresponsável atitude, deste ministro da educação. Sou uma professora de Matemática, mãe e cidadã preocupada e completamente chocada com a incompetência e desonestidade intlectual deste ME.
Angelina Fernandes Parabéns Professor. Sempre oportunas as suas crónicas...
Mário Jorge Contra factos não há argumentos; os números apresentados por quem os estuda são bem claros-não é pedagógico mudar os programas de cinco em cinco anos. Obrigado Professor Santana Castilho.
Joao Patricio Excelente reflexão. Quem me dera tê-lo na minha escola! Tudo o que diz sobre a matemática é totalmente verdade!! O atual programa é inovador, desenvolve o raciocínio, a comunicação matemática, o cálculo mental, ... E os resultados parece que já começam a ser visíveis.